Pela primeira vez, a direção artística do São Luiz Teatro Municipal é assumida por um artista no ativo. Acha que isso é por si só razão para haver uma mudança substantiva no modo como se vê e se pensa este teatro?

Não gosto de grandes mudanças, não gosto de tábuas rasas e muito menos de revoluções. Sou por natureza alguém que gosta de conservar o que está bem, o que tem dado frutos e, neste caso, aquilo que tem promovido uma ideia de teatro municipal. Sendo um artista, tenho naturalmente uma visão artística para este teatro, como o Jorge Salavisa teve, embora quando o dirigiu não estivesse no “ativo”. E mesmo os meus antecessores, o José Luís Ferreira e a Aida Tavares, não sendo artistas, pelo seu tempo de convívio com eles adquiriram uma linguagem que facilitava a comunicação nesse sentido. Eles compreendiam o artista, não se limitando a uma visão administrativa ou burocrática.

Teremos, portanto, uma continuidade…

Digamos antes que estou a procurar melhorar aquilo que pode ser melhorado dentro do padrão anteriormente estabelecido pela Aida Tavares, numa aproximação suave, numa mudança aos poucos. Como sublinhei, não gosto de mudanças bruscas. Acho que na maior parte das vezes servem apenas para coincidir com a imagem que alguém tem de nós e, daí decorrente, de sentirmos a necessidade de fazer diferente.

A Aida Tavares esteve oito anos à frente do Teatro São Luiz. Há algum traço que gostaria de destacar nos seus mandatos e que, seguramente, terão continuidade no seu?

Reconheço que as aproximações que a Aida fazia ao tecido cultural do país através do São Luiz sempre me pareceram muito acertadas, e nesse sentido, aplicarei a minha visão, embora com posições diferentes acerca de um conjunto de coisas. Contudo, há uma trama que é comum: como dirigir um teatro com esta amplitude, responsabilidade e pergaminhos na cidade de Lisboa. Aí é que me devo pôr sempre, abdicando muitas vezes da minha personalidade.

Isto leva-me a perguntar como é que a personalidade do artista vai lidar com a missão do diretor artístico?

São, antes de mais, papéis diferentes. Estou à frente de um equipamento que faz parte da EGEAC, empresa que tem como missão gerir um conjunto de equipamentos culturais municipais e, portanto, desde logo é necessário responder à missão do São Luiz no conjunto do património gerido pela empresa. O que procurarei aplicar é um carisma próprio, um carisma no sentido religioso e que não tem a ver com personalidade. Ou seja, não estou aqui para impor, mas para dialogar no intuito de articular a herança desta casa com uma, duas ou três aberturas que proponho. Depois, veremos se isso tem acolhimento no que está estabelecido e no acordo que este teatro tem com a cidade.

É uma das primeiras escolhas do novo diretor artístico: o coreógrafo Miguel Pereira volta a apresentar a peça “Miguel Meets Karima” em dezembro.

Assumiu funções a 1 de junho. Qual foi o primeiro desafio que se lhe colocou?

O primeiro desafio foi dizer “estou aqui”. Comecei por chamar todos os artistas programados para esta temporada para lhes comunicar que, apesar de esta programação ser maioritariamente da responsabilidade da anterior direção artística, eu estou com eles. Um a um, tentei perceber a natureza de cada proposta e a partir daí estabelecemos cumplicidades, contrapomos ideias, etc. Com isto, procuro constituir diálogo, lastro e património na minha relação com os artistas. Naturalmente, tenho inclinações para determinadas linhas artísticas, mas enquanto diretor desta casa tenho que me abstrair…

E essas conversas têm sido importantes para o diretor artístico?

Claro que sim. Tenho falado com artistas com quem nunca pensei cruzar-me enquanto artista, e é nesse sentido que estou a considerar esta experiência muito enriquecedora, capaz de quebrar preconceitos que poderia ter em relação a determinadas propostas das quais me distanciaria de uma forma natural. Esta função está a obrigar-me a implicar com cada visão para perceber como podemos trabalhar para um bem comum.

“Sou por natureza alguém que gosta de conservar o que está bem, o que tem dado frutos e, neste caso, aquilo que tem promovido uma ideia de teatro municipal.”

Há pouco referia a importância de situar a missão do São Luiz no contexto da EGEAC, e uma vez que falamos de um teatro, e existindo outros dois teatros municipais naquele universo (o LU.CA e o TBA-Teatro do Bairro Alto), não seria proveitoso para a cidade um diálogo mais efetivo entre eles e, naturalmente, mais percetível pelos públicos?

Como artista coloquei várias vezes essa questão, até porque ao longo dos anos apresentei propostas tanto ao São Luiz como ao TBA. Aquilo que tenho notado é que há um ajuste de visões muito salutar e que vamos procurando estar em contacto para saber onde cada um de nós se encontra e qual é o sítio onde mais nos potenciamos. Tive recentemente uma reunião com a Susana Menezes [diretora artística do LU.CA, teatro municipal vocacionado para a infância] para clarificar a minha posição de não retomar o serviço educativo do São Luiz, isto é, de não programar para idades inferiores ao 9.º ano de escolaridade. Procurarei, isso sim, ter projetos vocacionados para a idade pré-adulta.

Quanto ao TBA…

Ainda não consegui reunir pessoalmente com o Francisco Frazão [diretor artístico], mas o TBA tem uma programação muito específica, que dialoga com determinadas franjas de público. Há uma diferença histórica para o São Luiz, que eu sempre vi como um teatro mais popular, desenhado assim pela própria memória histórica. Pisaram este palco grandes estrelas como Eleonora Duce ou Sarah Bernhardt, e isso leva-me a acreditar que o São Luiz – até porque tem uma sala, a Luís Miguel Cintra, com uma lotação de 600 lugares –, deve ser um teatro para receber espetáculos de grande dimensão e de grande apelo popular, sem com isso dizer que exclua os artistas novos. Terão é de ser artistas que não estejam necessariamente numa fase embrionária da pesquisa, que tenham já um discurso consubstanciado e afirmado.

Embora o São Luiz tenha ainda mais duas salas, a Mário Viegas e a Bernardo Sassetti…

Cada sala deste teatro permite aproximações diferentes, contudo pode haver uma proposta teatral, coreográfica ou musical que, embora não tenha ainda a sedimentação de público de grande escala, deva, pela natureza do projeto, ser apresentada na Sala Luís Miguel [Cintra] e não noutra. Ou seja, não há nenhuma regra que diga que o artista mais conhecido tenha necessariamente de ir para a sala maior e o não tão conhecido para a sala estúdio. Aliás, quero que isso se sinta na Sala Luís Miguel com um maior ecletismo de propostas…

Pode explicar?

Pretendo aumentar naquela sala a participação de outras disciplinas que não o teatro, ou seja, procurar uma maior paridade entre teatro, dança e música, e neste campo específico a música clássica e o jazz. No fundo, quero que o São Luiz seja menos uma sala de repertório e mais um palco municipal para os grandes concertos, para os grandes coreógrafos…

O cinema está de volta ao São Luiz com o ciclo “Topografias Imaginárias”, organizado em parceria com o Arquivo Municipal de Lisboa-Videoteca.

Por falar em concertos, a abertura da temporada faz-se com música, e tem já a sua assinatura…

É algo que quero que aconteça sempre na abertura de cada temporada: uma festa a assinalar o início das atividades. Já no dia 2, vamos ter na sala principal Suzie and the Boys com um espetáculo chamado A boémia de um cabaret sonoro. A Miss Suzie é uma artista que sempre habitou entre a performance e a música e surge aqui acompanhada de uma orquestra de músicos provenientes de bandas como Ena Pá 2000 ou Cais Sodre Funk Connection. Logo a seguir, subimos à Sala Bernardo Sassetti para escutar o projeto Zabra Soundscapes, do João Pedro Fonseca e do Manuel Bogalheiro. Este momento de celebração resume uma ideia de festa que desejo. Acho que o ato de ver um espetáculo, espetáculo esse que comporta uma visão artística do mundo, não se deve esgotar aí. Ir ao teatro deve ser um momento para estarmos com os outros, com os amigos. Uma celebração que traga consigo um sentido de festa, de nos expandirmos como que dionisiacamente, embora dentro das possibilidades daquilo que é um teatro municipal [risos].

Os primeiros meses desta temporada são muito marcados pelas escolhas da anterior direção artística. Quando começaremos a ver e a perceber a entrada em cena do Miguel Loureiro?

Embora o grosso da programação seja da Aida, há alguns espaços onde posso intervir. Para já, em outubro, há um ciclo de cinema sobre Lisboa, com curadoria da Ilda Teresa Castro, feito em parceria com o Arquivo Municipal de Lisboa, intitulado Topografias Imaginárias; e, em dezembro, teremos uma coreografia de início de carreira do Miguel Pereira, d´O Rumo do Fumo, estreada num Alkantara Festival há uns bons anos, Miguel Meets Karima. Para o ano, prevemos projetos com o MPMP-Movimento Patrimonial da Música Portuguesa e com a Orquestra Metropolitana de Lisboa; uma homenagem à Maria da Fé, que estamos a preparar com o Museu do Fado; um festival de jazz ao ar livre, que irá ocorrer em junho, aqui no Largo do Picadeiro; ou um ciclo de cinco, seis espetáculos, disseminados ao longo do último semestre, que pretendo realizar todos os anos, com foco num maestro, e que se iniciará com o Martim Sousa Tavares. Para além disto, tenho idealizado um espetáculo para assinalar o Dia Mundial do Refugiado, e que deverá envolver outros equipamentos municipais, e ainda um ciclo de pensamento que contará com nomes como Bragança de Miranda e Thomas Piketty. Mas, sobre tudo isto, falaremos mais tarde.

De certo modo, e embora esteja neste papel há tão pouco tempo, sente que o programador é também um autor?

Devo dizer que, como encenador, os meus últimos trabalhos tendiam a apagar essa coisa da autoria. O importante era criar as melhores condições para desenvolver os projetos e trabalhar com a comunidade de artistas que me acompanhavam. Enquanto diretor artístico, quero integrar a visão que tinha enquanto criador. Sabendo que este é o sítio de desenvolvimento das linguagens artísticas, e que estas são sempre implicadas e engajadas, é aos artistas que aqui se apresentarem que cabe intervir, colocar os problemas e filtrá-los através da arte. O meu papel é ser o anfitrião da “festa”.

Quando voltaremos a ver uma criação ou uma atuação em palco do Miguel Loureiro?

Neste momento, não sei. Uma coisa é certa, estatutariamente estou impedido de o fazer aqui. Agora, o meu compromisso é com a direção artística do São Luiz, no sentido de construir uma linha de programação e pensamento que continue a inscrever este teatro na cidade, neste preciso local que é o Chiado, procurando fazer sítio do sítio.

Cantora lírica de formação, Catarina Molder é a mulher por trás do Operafest. A diretora artística do festival que vai para a quarta edição conta-nos que esta aventura nasceu em plena pandemia. “A ideia já estava no forno há mais de cinco anos e arrancou no primeiro ano de pandemia. Era uma coisa que estava no meu coração há muito tempo porque fazia falta. Vai ao encontro das grandes carências do mercado operático português.”

A verdade é que, até ao aparecimento do Operafest, “não existia, em Portugal, nenhum festival que entrasse no roteiro internacional dos festivais de ópera de verão”. Em tão poucas edições, o festival já se afirma “como um dos festivais europeus mais fora da caixa, e isso deve-se ao facto de apresentarmos grandes clássicos, mas também por apoiarmos muito a nova ópera, cruzamentos e revisitações.”

A resposta dos espectadores tem sido surpreendente, com “recordes absolutos de público que vem à ópera pela primeira vez. Estamos a chegar a um público que não consumia ópera. Este meio sempre foi muito fechado sobre si próprio, era preciso saber comunicá-lo. Chegámos a um ponto em que as pessoas só vão se à ópera se ela for quase 100% financiada pelo Estado, porque o público não pode pagar. A ópera afastou-se do grande público.”

Para a diretora artística, esse afastamento pode ter-se acentuado com a invenção do cinema, “que veio alterar a forma como as pessoas se divertiam. Com o aparecimento da televisão e das novas tecnologias, o divertimento deixou de estar no palco e passou a chegar a um número ilimitado de espectadores. O Homem entrou na utopia por excelência, e isso é maravilhoso, porque a arte tenta recriar utopias, o que tem um elemento muito catártico, porque enriquece a nossa existência, que é limitada, e apazigua as dores relativas à nossa finitude. Até lá, vamos tentando compreender os mistérios da vida e o objeto artístico tem uma ligação muito forte a estas grandes questões, que vão estar muito presentes nesta edição”.

“A ópera afastou-se do grande público”

O tema deste ano é Entre o céu e o inferno, com o subtema da libertação feminina: “as histórias das grandes óperas de repertório têm quase sempre heroínas, mulheres que são umas sacrificadas, tal como na vida real”, explica. A programação é marcada por grandes clássicos, com a presença das duas óperas mais vistas de sempre: Carmen, de George Bizet, no arranque do festival, e A Flauta Mágica, de Mozart. Molder destaca ainda “o grande clássico Suor Angelica, de Puccini, e a estreia absoluta de Rigor Mortis, do talentosíssimo Francisco Lima da Silva.”

Outro dos pontos fortes do festival é a ópera satélite, “que promove novos olhares e explorações da matéria operática a vários níveis, e que inclui uma conferência do Ruy Vieira Nery em torno do fenómeno [Maria] Callas na celebração do centenário do seu nascimento, e um curso livre que viaja pelo mundo da ópera”. Mas há muito mais para ver, como “a rave operática que se tornou a imagem de marca do Operafest, e onde se mistura o mundo pop com a ópera, demostrando o ecletismo do festival”.

A diretora artística do Operafest realça ainda a qualidade de todos os artistas envolvidos, “um viveiro de novo talento. Todos os encenadores deste ano estão a encenar ópera pela primeira vez”, como é o caso de Tónan Quito, com Carmen, Mónica Garnel, em A Flauta Mágica, ou David Pereira Bastos, em Suor Angelica e Rigor Mortis. “Alguns já são nomes consagrados no meio teatral, mas nunca encenaram ópera. Não vão estar preocupados com nenhum preconceito ou com a tradição. Acho que podem trazer propostas estimulantes para o mundo da ópera, que tem muita dificuldade em reinventar-se”.

Toda a informação e programação completa pode ser consultada aqui.

Na reta final do verão, mesmo antes do início da rentrée, Lisboa recebe o MEO Kalorama. O festival estreou-se o ano passado no Parque da Belavista, fazendo justiça ao nome (kalorama é a palavra grega para “bela vista”), e regressa para “confirmar que o sucesso da primeira edição não foi em vão”, como afirma a diretora de comunicação Andreia Criner. Nesta segunda edição, entre os cabeças de cartaz estão os Blur, Florence and The Machine e os Arcade Fire, argumentos de peso para conquistar um público que se pretende cada vez mais heterogéneo.

Por falar, precisamente, no público, na primeira edição do MEO Kalorama, 32% dos espectadores do festival eram estrangeiros, um número que, para a organização, fez todo o sentido, uma vez que “não descaracteriza o festival. Ouve-se, sobretudo, falar português, mas também muitas outras línguas, e essa mescla é muito interessante.”

Sobre como se seleciona um cartaz desta envergadura, Andreia Criner explica: “programa -se com risco, com vontade de mostrar coisas novas, nomes que o grande público provavelmente ainda não conhece. A dinâmica destes grandes festivais é essa: programar alguns nomes seguros, tendo espaço para poder mostrar coisas novas, introduzindo o que achamos que vão ser os grandes artistas do futuro.”

Tamino, uma espécie de ‘filho’ entre Jeff Buckley e Leonard Cohen, é uma das atuações que Andreia não quer perder.

O evento assenta sobre três pilares: música, arte e sustentabilidade. “Os festivais produzem pegadas ambientais pesadas, e por isso começamos o festival a pensar no que vamos fazer com os resíduos. Existe um plano e um compromisso público. Temos um projeto muito sério, empenhado e escrutinado”. A arte é outro ponto forte: “Lisboa é uma mostra de arte urbana a céu aberto, por isso este ano vamos ter ainda mais arte espalhada pelo recinto. Temos também a preocupação de ter muitos artistas nacionais, inclusive de Marvila, como os Underdogs ou Chelas é o Sítio. Do ponto de vista artístico, é uma zona extraordinária e que pulsa de talento.”

E, como a música é o principal, não podíamos deixar de pedir a Andreia as suas sugestões: “a nível pessoal, quero muito ver Tamino, uma espécie de ‘filho’ entre Jeff Buckley e Leonard Cohen. Não tenho dúvidas de que vai chegar longe e penso que irá chegar a Portugal relativamente desconhecido do público. Um dos nomes que penso que gera mais curiosidade é o de Ethel Cain. Outro nome interessante é a Siouxsie, mas talvez para uma geração um pouco mais velha.”

“Os Yeah Yeah Yeahs também são um nome imperdível. Já não vêm a Portugal há muitos anos e têm disco novo para apresentar”, sublinha Andreia. Mas, há mais: “Aphex Twin penso que vai ser o encontro de uma geração e os Prodigy também são um nome forte. Será com grande aperto no coração que não vamos ter o Keith Flint no palco, mas vai ser bom celebrar a sua memória, até porque passam 25 anos do lançamento de The Fat of the Land.”

Para concluir, a diretora de comunicação do Kalorama lembra ainda que “Arca, Pablo Vittar e Tiga são  outros nomes a não perder. E, claro, temos artistas lusófonos muito bons. Quero muito ver Scúru Fitchádu, Pongo ou Dino D’Santiago.”

Toda a programação pode ser consultada aqui.

Com curadoria de Alfredo Puente, Em Bruto: Relações Comoventes consiste numa instalação de grandes dimensões que encontra novas expressões e promove novos diálogos com a arquitetura de cada vez que é mostrada. Partindo de uma estrutura complexa de traves, cavaletes, vigas e barrotes que convocam noções de reconstrução do espaço e da sua reconfiguração, a obra, agora repensada por Fernanda Fragateiro para o espaço do Museu CCB, ostenta títulos discretamente inscritos de obras assinadas por arquitetos e arquitetas que têm constituído referências importantes no percurso da artista. O resultado apresenta-se em forma de teia física, que é também uma teia de reflexões sobre o arquitetónico, a cidade, o espaço e a modernidade.

Mas, antes de se chegar à sala principal, atravessa-se uma outra, que, segundo a artista “é uma obra por si só”. Chama-se Materials Labs e trata-se “de uma obra aberta”, que vai crescendo à medida que Fernanda Fragateiro vai continuando o seu trabalho como escultora. São peças que reúnem, em mesas/caixas, materiais de proveniência muito diversa e entre os quais se incluem livros, artigos, mapas cromáticos, restos de materiais usados noutras obras, fotografias e manuscritos que contam a história do seu processo criativo.

“Na verdade, é um arquivo onde reúno uma série de referências e materiais de referência que foram importantes para construir determinadas exposições e determinadas esculturas, mas que, depois, se materializa da mesma forma que uma pintura. No fundo, é como se eu pintasse uma série de materiais que me interessam”, avança a artista.

A mostra expande-se depois para uma sala de leitura, onde os visitantes podem consultar os livros de arquitetura referidos na obra que visitarão a seguir. Após esta introdução, a exposição abre-se à instalação que, segundo Delfim Sardo, da direção do Centro Cultural de Belém, “é o corolário de um processo de diálogo com as questões políticas, sociais e formais da arquitetura com as quais a Fernanda Fragateiro tem vindo a lidar”.

Na última sala surgem então várias estruturas concebidas em madeira, carregadas de referências escritas, que evocam a ideia de construção. Sobre este trabalho, a artista revela: “A mim, o que me interessava enquanto escultora era trabalhar a ideia de processo, de uma construção que está em decurso e não uma obra acabada, finalizada, que depois fosse comercializável. Pretendia uma peça que nos interrogasse sobre como é que entendemos o que é matéria-prima, o que são materiais, o que é a construção, o que é ruína, o que é fragmento e também que nos interrogasse sobre a forma como nós nos relacionamos com essas matérias.”

Fernanda Fragateiro, artista plástica e escultora reconhecida pelo seu trabalho que transita entre as áreas da escultura, instalação e intervenção artística, tem-se destacado pelas suas obras site-specific, utilizando a arquitetura e o contexto como elementos fundamentais das suas criações, estabelecendo um diálogo entre a obra e o ambiente que a rodeia.

Em Bruto: Relações Comoventes pode ser visitada no agora denominado Museu CCB de terça a domingo, até 10 de setembro. A entrada no museu é gratuita no primeiro domingo de cada mês.

A poucos dias do início da 16.ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ), a cidade prepara-se para receber mais de um milhão de peregrinos e voluntários que, para citar João Maia Abreu da Unidade de Missão da JMJ 2023, “vão pintar a cidade com as cores oficiais” (o vermelho, o verde e o amarelo) daquele que é um dos maiores eventos de sempre realizados na capital. As cores, evocação da bandeira portuguesa, são predominantes no logotipo desta JMJ, da autoria da designer portuguesa Beatriz Roque Antunes, que se inspirou no tema escolhido pelo Papa – Maria levantou-se e partiu apressadamente, passagem do Evangelho segundo São Lucas (Lc 1, 39) –, tendo a cruz como elemento central.

Sendo o ponto alto a presença do Papa Francisco, que chega a Lisboa a 2 de agosto, a JMJ é um evento religioso que, desde 1985, reúne milhões de católicos de todo o mundo, maioritariamente jovens. Lisboa, cidade escolhida pelo atual sumo pontífice, sucede à Cidade do Panamá, que acolheu o evento católico em 2019.

A JMJ inicia-se a 1 de agosto, terça-feira, com a Missa de Abertura, presidida pelo cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, no Parque Eduardo VII, mas, uma semana antes, a 26 de julho, dá-se o arranque do processo de acolhimento dos jovens nas dioceses.

Em paralelo a toda a JMJ, decorre o Festival da Juventude, composto por eventos musicais e concertos, conferências, exposições, espetáculos de teatro e dança, sessões de cinema, uma feira vocacional e torneios desportivos em espaços dispersos de Lisboa e arredores. Destacam-se o Terreiro do Paço e a Alameda D. Afonso Henriques como dois dos grandes palcos do evento, cujo o acesso é gratuito.

Os eventos centrais da JMJ

A chegada do Papa Francisco a Figo Maduro, a 2 de agosto, está programada para acontecer pelas 10 da manhã, seguindo-se “a visita protocolar ao Palácio de Belém e as deslocações ao Centro Cultural de Belém e ao Mosteiro dos Jerónimo”, explicita João Maia Abreu em texto enviado à redação.

No dia 3, “acontece o primeiro ato oficial da JMJ” quando, pelas 17h45, se iniciar o primeiro encontro entre o Papa e os jovens na Cerimónia de Acolhimento, no Parque Eduardo VII, denominado ‘Colina do Encontro’, no âmbito da Jornada.

A 4 de agosto, no mesmo local, realiza-se a Via-Sacra, que simula o trajeto de Jesus com a cruz até ao Calvário. Antes, o sumo pontífice volta a Belém para, na Cidade da Alegria (Jardim Vasco da Gama), “confessar alguns jovens”. Até à chegada à Colina do Encontro, o Papa tem agendado um encontro com os representantes de centros de assistência socio-caritativa, no Centro Paroquial de Serafina, e um almoço com os jovens, na Nunciatura Apostólica.

No dia seguinte, e depois de visitar Fátima, o Papa Francisco dirige-se para a zona oriental de Lisboa para, no Parque Tejo (agora ‘Campo da Graça’), participar na Vigília, onde para além da oração conjunta com os jovens, se faz a Adoração ao Santíssimo Sacramento.

Domingo, 6 de agosto, também no Campo da Graça, tem lugar a Missa de Envio, uma celebração presidida pelo Papa para encerrar oficialmente a JMJ. Antes do final da Missa, o sumo pontífice anuncia a cidade que sucede a Lisboa no acolhimento da próxima Jornada Mundial da Juventude.

A agenda deste dia inclui ainda a deslocação do Papa ao Passeio Marítimo de Algés para um último encontro com os voluntários da JMJ, estando o regresso a Roma previsto para cerca das 18 horas.

Todas as informações úteis sobre a JMJ Lisboa 2023 podem ser encontradas no site oficial do evento, disponível aqui.

“Esta peça é completamente anticapitalista”, frisa o encenador João Mota, lembrando que Paul Claudel, vulto da literatura francesa e figura de múltiplas controvérsias, católico convicto e militante desde os 18 anos, abraçou a carreira diplomática na última década do século XIX, tendo desempenhado o cargo de vice-cônsul em Nova Iorque e Boston. Embora haja uma dimensão universal no modo como as personagens encarnam vários aspetos da existência humana – Mota considera mesmo que “elas se completam” –, o seu olhar sobre os Estados Unidos da América (EUA) marca indelevelmente a peça de teatro L’Échange, datada de 1894 e reescrita quase 60 anos depois.

A ação de A Troca decorre algures na costa leste dos EUA, na propriedade de um rico e poderoso empresário, Thomas Pollock (Hugo Franco), que mantém uma relação com a atriz Lechy Elbernon (Maria Ana Filipe). Esse local tranquilo à beira mar emprega os recém-casados Louis (Rogério Vale), um jovem mestiço de origem indígena, e Marthe (Maria Jorge), uma camponesa francesa que partiu para a América por amor ao marido.

A paz em que vive o casal é abalada com o regresso inesperado dos ausentes Thomas e Lechy. Tentado pelos seus sonhos e ambições desmedidas, Louis trai Marthe, envolvendo-se com Lechy. Por sua vez, o poder manipulatório de Thomas, para quem “o dinheiro é a única coisa que vale a pena”, abate-se sobre as mais profundas convicções de Marthe.

O olhar cáustico do europeu Claudel sobre a América torna-se evidente, desde logo, no personagem de Thomas Pollock. “Ele é uma representação evidente daquilo que são os EUA”, nota o fundador da Comuna. “A vida para ele é negócio, tudo é troca, e não é só o capital; são as almas, são os corpos”. O encenador não deixa de transportar esta imagem para a conjuntura internacional, lembrando o poder que os EUA exercem sobre a América Latina, subjugando-a desde há longas décadas aos seus interesses, e para aquilo que se está a passar na Ucrânia. “Odeio o Putin, mas é cada vez mais evidente que os EUA têm todo o interesse na guerra porque o negócio é o armamento.”

É quase impossível não ver em Thomas Pollock a encarnação mefistofélica que corrompe as almas de todas as outras personagens, comprando-as ou “propondo-lhes uma troca”. Tudo é, pois, transacionável no mundo concebido pelo capitalista (na primeira versão, é um proprietário rural; na segunda, pode muito bem ser um especulador de Wall Street), e só Martha, através do seu ascetismo, resiste e não cede, embora isso implique a via sacrificial. Louis é presa fácil pela sua ansia de liberdade e ambição pessoal; e Leche já foi capturada há muito tempo, restando deixar-se habitar pelas personagens que encarnou no teatro para se reencontrar com a verdade.

Esse encontro com a verdade através da arte de representar é um dos aspetos que fascinou Mota nesta incursão pela peça de Claudel. “A dada altura, a Leche clama pela sua nudez de atriz para se mostrar com toda a transparência. Ela diz que só é verdadeira quando representa num palco. Isso diz muito sobre o ator e sobre aquilo que é o teatro.”

Para além de ser “uma peça extraordinária e atual”, o encenador, recentemente homenageado pelo Festival de Almada pelos 65 anos de carreira, gosta de lembrar Claudel como “um grande poeta e, em A Troca, encontra-se uma musicalidade da palavra que é rara e que tentámos manter o melhor possível na tradução” [de Luís Vasco]. Até porque, “é essa musicalidade que leva à emoção”, amiúde tão avassaladora, “que há até quem chore com esta peça”, conclui.

Com estreia agendada para dia 12, A Troca está em cena até final de julho, sendo a temporada do espetáculo retomada em setembro, em datas ainda a anunciar.

Criado em 2018 pela editora independente Robalo (que, entretanto, evoluiu para associação) numa parceria com a Antena2, o Festival Robalo Antena2 prepara-se para a sexta edição. Durante cinco dias, o auditório do Liceu Camões recebe dez concertos de jazz e música improvisada contemporânea transmitidos em direto pela Antena2. Como nos conta Gonçalo Marques, programador do evento, “a ideia é divulgar os vários estilos dentro deste género musical. Pretendemos ter músicos de várias gerações, alguns de fora de Lisboa, e há também uma preocupação com a questão de género”.

Numa altura em que decorrem outros festivais de jazz, a maior preocupação da organização é promover o que é menos conhecido: “programamos música que achamos que é boa, por isso é natural que ela passe também noutros sítios, mas tentamos ter projetos que não estão ainda a rodar muito. Um dos objetivos da associação é proteger as pessoas que não têm tantas oportunidades, ou porque estão numa fase inicial da carreira, ou porque são esteticamente muito específicas. Queremos dar este estímulo inicial à criação para ajudar grupos que ou ainda estão muito no início ou que são quase de nicho.”

“Queremos ajudar grupos que ainda estão muito no início ou que são quase de nicho”, diz-nos o programador Gonçalo Marques ©Francisco Levita/CML-ACL

Apesar de haver várias nacionalidades de músicos dentro dos grupos, a maioria são portugueses, “não apenas de forma a proteger os músicos nacionais, mas também por uma questão prática. Claro que preferíamos que houvesse uma mistura maior de nacionalidades, como também gostávamos que houvesse maior mistura geracional. Temos mais músicos jovens, mas pessoalmente gosto muito da mistura entre músicos mais experientes e músicos mais novos”, afirma o programador.

“O jazz e a música improvisada

devem ser ouvidos ao vivo”,

sugere Gonçalo Marques

Passemos ao alinhamento. A iniciar o certame, logo no dia 17, há uma atuação do trio luso britânico Practically Married + João Pereira, que aproveita a ocasião para lançar um disco. Segue-se um concerto de Aurin, do guitarrista Simão Bárcia. Ainda dentro dos lançamentos de discos, no dia seguinte há concerto do projeto de João Carreiro, Samuel Gapp e João Sousa. Nesse dia, há ainda atuação do ensemble constituído por músicos da Robalo e da associação Porta Jazz.

A 19 de julho, destaque para Forget about Mars, da pianista Debora King e no dia seguinte, é tempo de ouvir o projeto da pianista catalã Clara Lai, o único totalmente internacional deste festival.

No último dia, o festival abre com os Mirakelhund, grupo do trompetista João Almeida, um quarteto com músicos dinamarqueses. A finalizar, o imperdível concerto de Beast, um projeto que junta músicos de várias gerações: o saxofonista americano John O’Gallagher, Samuel Gapp, Zé Almeida e João Lencastre.

O programador Gonçalo Marques deixa o convite: “o jazz e a música improvisada devem ser ouvidos ao vivo”. No entanto, quem não puder comparecer pode sempre ouvir em direto à emissão da Antena2. O que interessa é ficar ligado, até porque “muita da música que vai passar é irrepetível, não só pela sua natureza de música improvisada, mas também pelo facto de serem grupos que não são muito conhecidos – ou porque estão a começar, ou porque envolvem músicos estrangeiros.”

No cartaz da “peça-concerto” de Cristina Carvalhal e João Henriques, Da Felicidade, vê-se um sol altamente contrastado em fundo azul. Logo nos primeiros minutos do espetáculo, percebe-se como aquela imagem remete para o ambiente solar, alegre e feliz, da terra mítica de Hiperbórea, que os gregos acreditavam existir para lá de onde sopra o vento norte, sítio onde o sol não se põe e um povo, bafejado pela paz perpétua e pela longa vida, vivia sem o flagelo das doenças e implicações da velhice, nem sequer as agruras do trabalho duro. Hiperbórea era uma terra tão bela, próspera e feliz que as suas florestas ficaram conhecidas como o “jardim de Apolo” e os seus habitantes, em homenagem às aves que migravam para aquele lugar, se faziam representar por gansos.

Como que louvando os “hiperbóreos” (e para isso até se lançam os dados no tabuleiro do jogo do “ganso”, ou da glória), os atores/cantores Bruno Huca, Júlia Valente e Sílvia Filipe, ao lado do pianista Ariel Rodriguez, da contrabaixista Sofia Queiroz e do clarinetista José de Geus, vão construindo com as palavras de poetas (Pessoa, Sylvia Plath, Ana Luísa Amaral), de filósofos (Espinoza, Walter Benjamin, Maria Filomena Molder) ou de escritores (Clarice Lispector, Virginia Woolf), um evocação de utopia sobre o palco. E como cimento da felicidade em construção, as canções de Chico Buarque, Sérgio Godinho, Queen, Prince ou Rag’n’Bone Man entrecruzam-se com pequenas histórias e fragmentos pessoais, memórias de momentos passados de alegria e bem-estar.

O lado mais íntimo e pessoal surge naturalmente como resultado de um processo criativo “muito colaborativo”, como lembra Cristina Carvalhal. Todo este espetáculo foi “feito em permanente diálogo com os músicos e com os atores, num processo longo e intenso”. João Henriques fala mesmo de “algo inteiramente novo” no seu percurso artístico: “quando começámos havia apenas uma proposta e agora temos um espetáculo. É como ter nos braços um bebé.”

Uma proposta que, conta Cristina Carvalhal, nasceu “ainda em tempo de pandemia, da necessidade de celebrar, da necessidade de alegria e da consciência do que aquilo que é de facto essencial é o amor”. Ao lado de João Henriques, músico e compositor, “com quem muito queria trabalhar”, veio a vontade de criar um objeto envolvendo “o teatro, a literatura, a música e o canto.”

Assumindo a forma de um recital, ou como os próprios apelidam “uma peça-concerto”, Da Felicidade acaba por propor uma reflexão sobre o próprio conceito de felicidade onde, nas palavras de Henriques, “as canções, com arranjos novos, surgem para estruturar, para interromper e dialogar, e para cruzar” com as ideias da filosofia, da poesia, do romance. E com a beleza das palavras contadas ou cantadas, lá está presente a alegria do gesto, do abraço, do amor e da paixão ou, simplesmente, da vida.

Nem que seja por pouco mais de hora e meia, Da Felicidade faz-nos sentir hiperbóreos, e antes que soe a última canção, já algo nos diz que havemos de chegar à casa do ganso e terminar o jogo em beleza.

Um espetáculo feliz, em cena até dia 16, na Sala Mário Viegas do São Luiz Teatro Municipal.

A capa do livro reproduz uma imagem criada por Noé Sendas, nome que é referido no diário da protagonista. De quem foi a escolha da capa: sua ou da editora? Que significado tem para si esta imagem no contexto do livro: o de uma mulher à beira do abismo?

Talvez à beira do abismo. Seguramente desamparada, e num movimento solipsista. Sugeri que a capa fosse do Noé Sendas, e de entre algumas opções do seu trabalho, achámos que esta transmitia aquilo que queria que o livro tivesse. Há também um certo mistério e uma hibridez que ela tem, que penso que falam com o livro. Esta cabeça de Diana ou de Atena, de deusa da antiguidade clássica, e este corpo que parece pouco de carne, têm qualquer coisa de muito sugestivo para mim. E gosto de pensar que ela pode mergulhar no abismo, mergulhar em si própria, ou pode até mergulhar num delírio, num sonho. Dizendo isto já estou a trazer muitas coisas que são importantes para o livro, e que têm que ver com uma zona de fronteira muito flexível, resvaladiça. Não por acaso o livro termina com essa interrogação: e se tudo não tiver sido um delírio?

O romance é descrito como sendo autoficcional. Que distinção faz entre autobiografia e autoficção, e porque se decidiu por um destes registos relativamente ao outro?

Este autodenominado género autoficcional tem em escritoras como Annie Ernaux, Natalia Ginzburg, Joan Didion, Elizabeth Strout, algumas das vozes mais eloquentes. E depois há uma outra escritora de que falo também, e que não faz autoficção, mas que faz auto e hétero-biografia, que é a Svetlana Alexijevich. O que há percorrendo todas estas autoras é uma deriva entre aquilo que é autobiográfico e o que é ficcional. O que é a experiência do sujeito e o que pode ser uma experiência do coletivo. Eu optei por fazer um registo autoficcional porque quis trabalhar sobre uma base biográfica. E tendo eu um percurso público enquanto jornalista, sobretudo a partir do meu trabalho em televisão, amadureci muito cuidadosamente aquilo que queria mostrar e as zonas de sombra, ou mesmo de equivocidade em que queria deixar o leitor. Optei por adensar a ambiguidade ao invés de esconder o que podem ser elementos reconhecíveis. Escrevi grandemente o romance durante a pandemia e a doença, mas foi tão ou mais importante o trabalho que fiz o ano passado depois de uma longa gestação, e este trabalho também me ajudou a compreender que aquilo que eu queria fazer era mesmo trabalhar neste registo da autoficção.

É público o seu entusiasmo em relação à obra de Annie Ernaux, autora que chegou a conhecer pessoalmente. Em que momento se situa a leitura que fez da obra de Ernaux relativamente à escrita de O Quarto do Bebé?

Aquilo a que chamo de primeira pedra, e que é um trabalho de escrita, é anterior à Annie Ernaux. Depois partilhei o que tinha escrito, e que era ainda informe, com a Susana Moreira Marques, uma escritora que admiro muito, que dá cursos de escrita de não-ficção, ela mesma escreve nesse registo, e a Susana deu-me o La Place [Um Lugar ao Sol], Anne Carson, e outros livros, achando que iam ser úteis para mim. Foi o meu encontro com a Annie Ernaux. Depois quando construí o romance, com a enxertia de microficções, cartas, sonhos, isso foi tudo feito já depois de ler os livros da Annie Ernaux.

O livro abre com uma advertência, que conta a descoberta e a obsessão de uma mulher com o diário de uma paciente do pai, psicanalista morto recentemente. Essa mulher nunca mais será referida. Que presença ou identificação é suposto guardarmos ou estabelecermos com ela?

Gosto muito dessa ideia de o leitor pensar onde estará essa “filha do meu pai”. É assim que ela assina. A história dessa advertência e desse dispositivo é tratar-se de um recurso machadiano. Eu dialogo com vários autores ao longo do livro, mas aquele com quem dialogo mais é Machado de Assis, o autor que estudo. Nos seus últimos romances, Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), os livros abrem justamente com uma advertência. E até a primeira frase [“Quando o meu pai morreu, achei-lhe na secretária uma série de cadernos manuscritos.”], e o verbo escolhido para essa frase, é um modo de me entranhar no Machado, porque o Esaú e Jacó diz qualquer coisa como “Quando o conselheiro Aires morreu, acharam-lhe na secretária sete cadernos ricamente encapados” tal e tal. Gosto muito dessa ideia de alguém no post mortem encontrar um legado, uma questão fundamental quando pensamos em filhos, é algo que me obceca a noção de legado que nós deixamos e alguém encontra. Há uma outra questão aqui que é a da autoria. Quem é verdadeiramente o autor daquilo que estamos a ler. Claro que, em última instância, os autores são o Machado de Assis e sou eu. Mas existem muitas camadas entre o que é um material encontrado, a ilusão de reconhecimento e identificação daquela pessoa, e depois o trabalho de edição de alguém que encontrou aquilo e se permite até mudar o título.

A autora do diário chama-se Ester do Rio Arco. Um nome incomum, talvez mesmo um nome literário. A escolha do nome Ester liga-se para si à condição de esterilidade daquela mulher, incapaz de gerar filhos?

Isso é maravilhoso. Não pensei nisso; gostaria de ter pensado. Todos os nomes dos personagens são importantes. Têm um significado para mim que prefiro não partilhar. É mais uma coisa que aprendi com o Machado de Assis. No livro Esaú e Jacó a mãe dos gémeos chama-se Natividade. Gosto que os nomes já tenham uma carga simbólica. Todas as pessoas no livro têm nomes que não são os seus, e o mais comum é que os personagens condensem várias referências, pessoas, experiências. Ester é um nome que começa por ter uma ressonância bíblica, e é um nome de que gosto bastante.

Usando o paralelismo presente no livro entre a escrita e a gravidez (“Escrever é ser capaz de gerar.”), até pelo modo como o ato de escrever pode redimir a infertilidade daquela mulher, diria que este livro lhe aconteceu a si ou que foi algo planeado?

Se calhar as duas coisas, mas acho que foi mais planeado. Já tinha a intenção de escrever há algum tempo, e acabou por acontecer no confinamento ser incentivada a escrever, como forma de me ligar aos dias e de encontrar palavras para aquilo que estávamos a viver e que era inédito para todos nós. Mas que pudesse também a partir dali ligar-me com uma experiência traumática recente, sobre a qual não tinha conseguido ainda elaborar. Há aqui duas doenças, dois momentos de uma enorme perturbação física e psicológica, e a doença coletiva que vivemos todos com a pandemia. Tudo isto me pôs a pensar naquilo que é mais próprio e profundo do ser humano. O nascimento e a morte, e esse horizonte de mortalidade.

“A morte das pessoas que amamos é aquilo que nos começa a ensinar que somos mortais.”

O tempo do diário de Ester ocupa sensivelmente um ano: período em que lhe morreram pessoas que amava, em que se descobriu com uma doença grave, em que foi obrigada ao isolamento pela pandemia da COVID. Onde vê maior superação: em chegar-se vivo depois de atravessar estas provações ou na capacidade de organizar tudo que ali se passou sob a forma de livro?

Acho que a superação é, estranhamente, querer o dia seguinte. Isso é muito misterioso no ser humano porque nós atravessamos estas provações, maiores ou menores, e qualquer coisa nos faz querer o dia seguinte. Mesmo com momentos de enorme desânimo, desesperança, sofrimento, mas depois surge uma energia vital, que acaba por brotar (a minha atenção às plantas também foi uma forma, não só de ter presenças vivas perto de mim, mas de compreender como é isto que ainda não estamos a ver, mas que se está a operar debaixo desta terra e já é vida). Connosco também acontece isso, algo que nos impele a viver, e a grande superação é essa, continuarmos a querer o dia seguinte.

O Quarto do Bebé é um relato cheio de morte. A partir de que altura a sua vida se começou a encher de morte, e até que ponto considera eficaz o efeito catártico que a arte representa face a essa inevitabilidade?

Concordo com essa leitura. Acho que o que predomina neste relato é a morte, a certeza da morte, a dor da morte, a dor da perda, mas como disse atrás, ainda que esse seja o elemento predominante, há depois estranhamente uma temperatura solar. Um desejo ainda de “voltar à gemada” [“A gemada da minha infância era só gema e açúcar, não se punha leite.”] e começar tudo de novo. A morte das pessoas que amamos é aquilo que nos começa a ensinar que somos mortais. Vivemos a maior parte da vida como se fossemos imortais, e está certo. Compreendi que sou mortal com a morte da minha avó. Mas também compreendi de uma forma muito decisiva quando morreu a pessoa que inspira a personagem Aurora.

Que sentimentos vieram à tona quando pôs um ponto final a este livro? Orgulho, alívio, vazio, limpeza, tristeza, outros?

Limpeza é uma palavra boa porque preciso de limpar e arrumar. Ajuda-me muito a pensar, a refletir sobre as coisas, estar a fazer um trabalho manual. Quando acabei de ler o romance tive sensações contraditórias. Essa impressão de limpeza como se fosse uma purga; também uma impressão de distância (aquela já não era eu, de facto); paradoxalmente também tive uma impressão de ter sofrido muito. Como se me visse agora de fora e dissesse, caramba foi duro. Mas já não sou eu e já passou.

O que é que a Anabela Mota Ribeiro poria numa dedicatória a O Quarto do Bebé, antes de entregar o livro nas mãos de Ester do Rio Arco?

[risos] Tenho que pensar. Acho que poria uma trave da Nadia Comăneci, como a das vinhetas do livro, e diria qualquer coisa como “Para a Ester, que sabe que a vida é levantar e cair.” Inverteria a ordem. Claro que a vida também é cair e levantar, é sobretudo isso que nos ensinam, mas é muito importante sentir o chão.

Toni Morrison

O Olhar mais Azul

“De par com a ideia de amor romântico, ela conheceu outra: a da beleza física. Provavelmente as duas ideais mais destrutivas da história do pensamento humano. Ambas tinham origem na inveja, prosperavam na insegurança e terminavam em desilusão”. No Ohio dos anos de 1940, Pecola tem a pele mais escura de toda a escola. Rejeitada e tratada com desdém, todas as noites reza para ter os olhos azuis como as atrizes de cinema, as meninas brancas privilegiadas e as bonecas de brincar (“Pecola nunca conheceria a sua beleza. Veria apenas o que havia para ver: os olhos das outras pessoas”). Esta é uma obra poderosa sobre as consequências trágicas e debilitantes de se achar a rejeição como legítima e sobre a forma como a protagonista se desmorona, silenciosamente, anonimamente, sem voz para exprimir ou reconhecer o trauma. Mas, é também um livro que rejeita a noção equivalente de fealdade/negridão e que confronta o conceito de beleza imposto. A autora, Prémio Nobel de Literatura em 1993, procurou com este romance de estreia, que tenta tocar no “nervo nevrálgico do autodesprezo racial”, uma escrita “indiscutivelmente negra” tentando “transfigurar a complexidade da cultura negra americana numa linguagem digna dela.” Presença

Fernando Pinto do Amaral

Última Vida

O volume poético Última Vida divide-se em três partes: a primeira constituída por sonetos; a segunda por uma não-carta-de-amor em sete estâncias; e a terceira por poemas reunidos sob o titulo de Fim do Mundo. Fernando Pinto do Amaral retoma o seu lirismo de tons melancólicos, um conjunto de poemas que parecem dar-nos o retrato de um espírito ou de um planeta feitos de sombras, em vésperas de um fim do mundo anunciado. Paralelamente, a presente coletânea propõe também uma profunda reflexão sobre o sentido da própria poesia. No poema Remorsos, inspirado nuns versos de Auden que expressam a esperança do poeta se libertar do inferno devido aos livros que escreveu, lê-se: “(…) não tenhas remorsos como Auden. / É já tarde para isso e os poemas /não mudam o que foi a tua vida: / quem os ler vai pensar que foi outra, / imaginá-la outra – é sempre assim / e os poemas não pesam no juízo final”. Mais adiante, no poema Sombra, interroga-se: “Para quê escrever mais?”. Certamente em busca da “(…) última paz / antes do infinito / como um verso que traz / o que nunca foi dito.” Dom Quixote

As Mil e uma Noites – Histórias Apócrifas

A labiríntica narração de Xerazade tem seduzido gerações de leitores conduzidos por um mundo lendário, mágico e alegórico, povoado de reis, califas, tapetes voadores, misteriosas princesas, enganos, e trágicos amores, em que exotismo e sensualidade se confundem. Porém, As Mil e uma Noites, é, simultaneamente, uma obra que faz parte do imaginário popular e uma das mais desconhecidas da literatura universal. As suas histórias, as mais antigas remontam ao século XIV, foram sucessivamente alteradas, aumentadas ou encurtadas e, até, inventadas por tradutores menos escrupulosos. Antoine Galland, o primeiro tradutor europeu de As Mil e Uma Noites, acrescentou à tradução do manuscrito em sua posse várias histórias. Estas histórias apócrifas, como as designam os especialistas, terão sido contadas a Galland por um mercador sírio Hanna Diab que falava francês. Entre elas, contam-se algumas das mais populares, como as de Ali Babá e os Quarenta Ladrões ou Aladino e a Lâmpada Mágica. Este volume reúne as histórias que não provêm dos manuscritos árabes que recolhem lendas e contos tradicionais. Provavelmente, nunca se poderá garantir se terão sido contadas pelo mercador sírio, inventadas por Galland ou constado de algum manuscrito entretanto desaparecido. E-Primatur

Gustave Flaubert

A Tentação de Santo Antão

Em 1845, o escritor Gustave Flaubert (1821/1880) admirou, no Palácio Balbi, em Genova, a pintura atribuída a Pieter Brueghel, o Jovem, A Tentação de Santo Antão. Esta experiência, juntamente com as recordações dos espetáculos ambulantes apresentados na feira de Saint-Romain em Rouen, inspirou a criação da presente obra, objeto estranho e inclassificável com a perfeição formal que caracteriza os escritos do autor. Antão, o eremita de Tebaida, dialoga com aparições sucessivas e tentações demoníacas: visões de luxúria, seduções de poder e de prazer e a aparição do seu discípulo, Hilarião, que faz desfilar, perante ele, “os deuses de todas as nações e de todas as épocas” sublinhando as contradições das Escrituras. Segundo Baudelaire, seu contemporâneo, a obra constituía o “gabinete secreto do seu espirito” através da qual Flaubert expôs a “faculdade subterrânea do sofrimento” que marca a “desordem tumultuosa da solidão”. Uma obra percursora que antecipa o movimento surrealista na sua estreita relação com a teoria psicanalítica, conduzindo o olhar do leitor, ora encantado, ora aterrado, através de um mundo “criado por um Deus em delírio.” Minotauro

Ricardo Gonçalves Dias

Marcha de Alfama – A História da força de quem canta

O livro infantojuvenil O Primeiro País da Manhã narra a aventura de um menino que, para devolver um pouco de igualdade e de justiça ao mundo, decide inventar o seu próprio país. Em 2013, a obra vence o Prémio Branquinho da Fonseca Expresso/Gulbenkian. Em 2015, o autor, Ricardo Gonçalves Dias recebe o Prémio Jovens Criadores na área da Literatura. O escritor concentra agora a sua atenção na história da Marcha de Alfama. Desde a sua origem, as Marchas Populares de Lisboa alcançaram um lugar de relevo na vida cultural da cidade e um grande impacto nos bairros mais tradicionais que participam no evento. Para esta realidade, a Marcha de Alfama deu um contributo inegável, continuando a ser a marcha com mais títulos conquistados desde sempre e representando-se internacionalmente em países como Cabo Verde e Japão. Marcha de Alfama – A História da força de quem canta descreve o percurso de uma marcha popular, cruzando a história com a vida do bairro. A obra tem sempre presente a população alvo do texto, a que pertence ao universo da marcha e aquela que vive em Alfama, o bairro mais antigo de Lisboa que continua a encontrar caminhos para preservar a sua identidade perante a pressão dos tempos. Diário de Bordo

Nuno Costa Santos

Como um Marinheiro eu Partirei

Em centena e meia de páginas, Nuno Costa Santos presta tributo à sua relação com o cancioneiro e a figura de Jacques Brel (1929-1978), e com aqueles com quem tem partilhado este amor ao longo da vida. Como um Marinheiro eu Partirei – Uma Viagem com Jacques Brel usa por mote a frase “Um homem fuma um cigarro à proa do iate, concentrado no som do mar”, repetida algumas vezes até ao final, como que relançando na eternidade a viagem de barco que Brel iniciou (com as interrupções que o livro também assinala), após ter terminado a carreira nos palcos para se dedicar a viver como bem quis. No trajeto, aportou na ilha do Faial, onde teve início uma breve história de amizade com um médico local de ascendência belga. Nuno Costa Santos puxa por várias pontas da biografia de Brel, que cruza com a sua história pessoal entre os Açores e Lisboa, falando daquilo que se propõe intuir da personalidade do cantor belga, alguém que o levou a descobrir pessoas tão apaixonadas pelas suas canções como ele, e que fez ainda questão de dar a descobrir aos filhos. Trata-se um livro muito livre e muito afetuoso, que se constrói num registo híbrido pouco usual entre nós. RG Elsinore

Victor Correia (Organização)

Poemas eróticos sobre Frades, Freiras e Padres 

A vida dos frades, freiras e padres está rodeada de interditos devido aos votos de castidade e celibato. A literatura erótica alimenta-se da transgressão associada à sexualidade. Em Portugal, desde a Idade Média, através dos cancioneiros medievais galego-portugueses, que se dá conta de transgressões praticadas por freiras e padres com indivíduos que não pertenciam à Igreja, por padres e freiras entre si, mas também entre os próprios padres e freiras. Porém, é sobretudo nos séculos XVII e XVIII que se escreveram esses poemas em consequência do contexto sociocultural da época, devido, por um lado, ao facto de haver mais conventos no país, e por outro, às influências que Portugal recebeu das “ideias libertinas da Europa desses séculos”. Organizada por Victor Correia, esta antologia única reúne poemas eróticos sobre frades, freiras e padres, escritos por mais de 50 autores portugueses clássicos, da Idade Média ao início do século XX. No final da antologia, divulga um conjunto de poemas inéditos do século XVIII, cujos manuscritos estão no arquivo nacional da Torre do Tombo: são da autoria de um frade, Frei João de Deus, e foram endereçados a diversas freiras. Têm agora, pela primeira vez, publicação em Portugal. Guerra & Paz

Honoré de Balzac

O Pai Goriot

Balzac (1799-1850) concebeu uma obra monumental com perto de 100 volumes. A quase totalidade forma um conjunto a que deu o título de A Comédia Humana, através do qual cria um extraordinário retrato da sociedade francesa da primeira metade do séc. XIX. Visionário poderoso, dotado de uma imaginação e sentido de observação invulgares, debruça-se sobre as problemáticas da paixão e da tomada do poder pela burguesia endinheirada. Este romance narra a história do pai Goriot, fabricante de massas viúvo que, tendo enriquecido durante a Revolução, permitiu às filhas, Anastasie e Delphine, encontrar bons partidos. Apesar da ingratidão das filhas, o protagonista dá provas de um amor paternal absoluto que quase raia a loucura. Paralelamente, desenvolve-se um tema tipicamente balzaquiano: o de um jovem provinciano ambicioso, de beleza delicada e algo andrógina, Eugène de Rastignac, que luta no mundo competitivo e adverso da grande cidade de Paris. A Comédia Humana, é uma obra colossal na qual as personagens passam de uns romances para os outros. Nesse sentido, embora na realidade não tenha sido concebido como tal, O Pai Goriot pode ser lido como o primeiro volume de uma pressuposta trilogia completada, respetivamente, por Ilusões Perdidas e Esplendores e Misérias das Cortesãs. Relógio D’Água

Edmund Wilson

Rumo à Estação da Finlândia

Edmund Wilson (1895 -1972) foi um escritor, ensaísta, jornalista, historiador e crítico norte-americano. Importante e influente crítico literário do The New Yorker influenciou o gosto literário de sua época promovendo novos escritores como William Faulkner e Ernest Hemingway. Na introdução a Rumo à Estação da Finlândia, a sua obra mais relevante, escreve: “É muito fácil romantizarmos uma sublevação social que acontece num país distante. (…) Ao longo deste livro, parte-se do princípio de que se deu um passo importante no sentido do progresso, de que ocorreu uma ‘conquista’ fundamental e de que nada na história da humanidade voltaria a ser como era”.  Neste, que é o seu único estudo histórico, publicado pela primeira vez em 1940, desenvolve uma história intelectual em larga escala das ideias revolucionárias que deram forma ao mundo moderno, desde a Revolução Francesa até à chegada de Lenine, em 1917, à estação da Finlândia, em São Petersburgo. A obra é marcada por um tom vibrante, resultado do estilo do autor, mas também na sua convicção na ideia basilar de que é possível construir uma sociedade assente na justiça, na igualdade e na liberdade. O autor narra as vidas de anarquistas, socialistas, niilistas e utópicos como Vico, Michelet, Bakunin, Marx e o próprio Lenine. Com Wilson, a visão histórica é transformada num enredo pleno de romance, idealismo, intriga e conspiração. Imprensa da Universidade de Lisboa

Miriam Assor

Portugueses na Lista Negra de Hitler

O nazismo classificou os judeus como inimigos prioritários, mas perseguiu igualmente opositores políticos, testemunhas de Jeová, homossexuais, pessoas acusadas de serem criminosas profissionais e os chamados antissociais (mendigos, prostitutas, alcoólicos). Esterilizou, à força, afro-alemães, vitimou deficientes, empregou medidas extremas contra grupos considerados inimigos raciais, civilizacionais ou ideológicos, ciganos e funcionários e prisioneiros de guerra soviéticos, como lembra Miriam Assor no prefácio ao presente livro. Não obstante Portugal ter declarado neutralidade na II Guerra Mundial, houve cidadãos com documentação portuguesa tragicamente envolvidos na contenda. Fruto de uma pesquisa de mais de dez anos, esta é uma investigação inédita sobre os judeus portugueses que foram vítimas do totalitarismo nazi, do seu encarceramento, condições de transporte para os campos de extermínio. A obra inclui  as memórias dos poucos que sobreviveram ao Holocausto, narradas pelos próprios ou pelos seus descendentes. Lembra a política consular do Estado Novo, que poderia ter feito muito mais para proteger os seus cidadãos no estrangeiro. Recorda os nomes dos diplomatas que desobedeceram às diretivas do Ministério dos Negócios Estrangeiros e a intervenção da Polícia portuguesa, no sentido de fechar as fronteiras e de encurtar o mais possível a estadia dos refugiados em território nacional. Casa das Letras

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