Clarice e as coisas perdidas

Catarina Sobral em dose dupla no LU.CA

Clarice e as coisas perdidas

No LU.CA – Teatro Luís de Camões, há um projeto em duas dimensões da artista Catarina Sobral: uma exposição que convida a investigar o mundo das “coisas perdidas” e um espetáculo teatral que segue a personagem Clarice numa viagem sensível em torno da perda.

No Entrepiso do LU.CA, encontramos Philosophiæ Naturalis da Professora Clarice, uma exposição que apresenta o resultado de uma “investigação” (muito pouco científica, mas altamente imaginativa) sobre aquilo que perdemos ao longo da vida. Nesta mostra da ilustradora Catarina Sobral, o visitante é recebido por um tratado “bio-mecânico-histórico-antropológico-sentimental” que mapeia a anatomia, os habitats, a evolução das espécies e até os comportamentos das coisas que se evaporam do quotidiano.

Entre causas perdidas e objetos famosos que desapareceram sem deixar rasto, a exposição convida a observar e a brincar. Grandes ilustrações em lona estão espalhadas pelo espaço e, através de um percurso interativo, as crianças são desafiadas a descobrir e recolher essas coisas perdidas, como pequenas investigadoras ao serviço da memória.

Também este mês, a partir de dia 3, sobe ao palco Perder, com a jovem atriz Mar Bandeira. Esta peça de teatro acompanha Clarice na véspera de ir acampar com a avó. Na mala, a menina leva tenda, saco-cama, lanterna, cão de peluche e o livro das histórias que a avó costuma ler, sobre animais que mudam de pele para crescer ou que uivam quando alguém parte. A avó é cientista e Clarice também quer ser – mas uma cientista muito particular: uma cientista de coisas perdidas. Enquanto reúne objetos e palavras, escreve o seu próprio tratado sobre o que significa perder: perder porque se deixou escapar, perder porque não se encontrou, perder porque se cresceu.

Além de autora e diretora artística deste espetáculo, Catarina Sobral é ainda responsável pela manipulação em tempo real das imagens em palco.

Para Catarina, os dois projetos nascem da mesma premissa e da mesma personagem, mas podem ser experienciados separadamente. “Quem vir apenas o espetáculo ou apenas a exposição compreende-os na totalidade”, explica, “mas quem passar pelas duas peças encontra um fio que as liga: a forma como Clarice tenta explicar, à sua maneira, o sentimento da perda”.

Dois objetos artísticos independentes que se completam na forma como abordam, com humor e delicadeza, o misterioso território do que desaparece. No palco, explora-se o lado afetivo e íntimo da perda; na exposição, esse pensamento ganha corpo em mapas, classificações e teorias improváveis.

Entre o rigor fictício da ciência e a fragilidade das emoções, Clarice convida-nos a olhar para o que se esconde nos bolsos, nos quartos, nos dias – e que, quando desaparece, deixa um rasto invisível. No LU.CA, perder transforma-se num gesto de brincar, pensar e cuidar. Porque perder também faz parte de crescer.