Teresa Coutinho

"Seria desonesto refletir sobre o que é isto de estar em palco e não falar da minha experiência"

Teresa Coutinho

Que imagem de feminino incute o cinema e o teatro numa jovem mulher? E numa mulher que se tornou atriz? Teresa Coutinho mergulhou no mais íntimo e pessoal desta interrogação e criou Solo, o espetáculo que estreia no final de julho, no Teatro do Bairro Alto. A propósito desta criação, a atriz e dramaturga partilhou a experiência de construir um corajoso e urgente objeto de teatro autobiográfico onde, através da utilização dos recursos performativos e do vídeo em tempo real, se enfrentam, na primeira pessoa, estereótipos e preconceitos relacionados com a beleza, a sexualidade ou a linguagem.

Solo nasceu imediatamente como um projeto com forte pendor autobiográfico?

Inicialmente não pensei em inserir elementos autobiográficos. Comecei por partir de um texto de Laura Mulvey, Perspectives on Cinema, que se debruça sobre o lugar da mulher no cinema, sobre a imagem e a beleza feminina e aquilo que a autora denominou de male gaze, ou seja, o olhar masculino sobre a mulher, sempre predominante no cinema ao longo do tempo – embora pontualmente tenham surgido visões femininas, mas quase sempre periféricas e pontuais. Quando comecei esta pesquisa estava muito influenciada ainda por um espetáculo anterior que tinha feito sobre John Berger [Ways of Looking, estreado no Teatro Nacional D. Maria II, em 2017], onde me debruçava sobre o modo como se manipula e dirige o olhar do espectador. Essas referências levaram-me a pensar um espetáculo sobre a imagem da mulher no teatro e no cinema. E a isso, juntou-se a vontade de misturar o espetáculo de teatro “sem intermediário” com o espetáculo de teatro que usa a câmara como um segundo olhar, o que permite ao espectador ter acesso a dois planos ou olhares diferentes.

E como é que a autobiografia entra no projeto?

Quando comecei a escrever percebi ser impossível não me colocar no texto. Achei mesmo que seria desonesto da minha parte estar a refletir sobre o que é isto de estar em palco, de ser uma mulher, de haver uma ideia de beleza que nos constrange ou nos coloca em “caixas”, e não falar da minha experiência. Com muita dificuldade, comecei a abordar assuntos que foram decisivos na maneira como eu mesma construí uma ideia de mulher e de atriz. Sobretudo de atriz, e de como isso se relaciona com a mulher que está no palco, que está lá para ser vista e provocar sentimentos, emoções ou desejo. No fundo, esta pesquisa levou-me a compreender como certas formas de estar são incutidas desde muito cedo, e depois se prolongam ao longo do percurso académico e profissional. Ao falar sobre tudo isto na primeira pessoa tinha, necessariamente, de falar da minha vida.

Ao trabalhar sobre matéria autobiográfica, o/a artista procede necessariamente a um exercício de autoconhecimento?

Sim, é inevitável. Quando se começam a abordar estes temas, abre-se um baú sem fundo. Em primeiro lugar, sinto que nos estamos a colocar muito em causa; depois, é forçoso debatermo-nos com o dilema de dizer ou não determinadas coisas no teatro, naquela que é a imensa dúvida de saber, ou perceber, se é aquele o lugar certo. Vivi muita angústia ao expor determinados assuntos, sem saber se o devia ou não fazer. Mas também percebi que, toda essa angústia, provinha do facto de ser a primeira vez que o estava a fazer com um espetáculo. Há, ao longo do processo, um caminho de autoconhecimento que nos leva a lugares dolorosos e que muitas vezes nem sequer imaginamos.

O que foi mais difícil colocares no espetáculo?

Não sei se terá sido o mais difícil mas, quando estava a escrever sobre o amor e sobre uma ideia de par romântico, tive necessariamente de falar de como foi o meu despertar amoroso, e de como isso foi doloroso na adolescência. Decidi abordar o assunto porque reconhecia o quanto terá sido decisivo e determinante na minha vida, já que, na altura, passei por muitos constrangimentos e dificuldades, dado que versa a minha homossexualidade. Com alguma surpresa, acabei por deparar-me com coisas que julgava estarem mais pacificadas, ou até resolvidas.

Como é que se encontra um ponto de equilíbrio entre aquilo que se expõe e aquilo que não se quer ou deve mesmo expor?

Como disse, num primeiro momento, para tornar compreensível e palpável aquilo que pretendia transmitir, percebi ser impossível retirar-me do texto. Em segundo, compreendi que a relação a estabelecer com quem me ia ver passava por uma exposição que não teria necessariamente de mostrar aquilo que é muitíssimo privado, mas que necessitaria de um grau de exposição suficientemente elevado para se perceber que aquela sou eu sem grandes capas. No fundo, aquilo que exponho, julgo ser o bastante para estabelecer essa relação com o público.

Algo profundamente inquietante em Solo é termos a perceção de que aquilo que é tão íntimo e pessoal pode ser, simultaneamente, tão universal…

Curiosamente, quanto mais pessoal mais universal. Ao mesmo tempo que se percebe que cada um de nós tem uma imensa especificidade, também vamos reconhecendo que, afinal, somos todos muito parecidos, e isso é maravilhoso. Todos nós sofremos por amor, todos nós vivemos paixões arrebatadoras, todos nós queremos ser aceites e ser amados, todos nós sonhamos, falhamos…

E é político também.

É, de facto, muito interessante irmos percebendo como o pessoal pode ser efetivamente político. Nós achamos muitas vezes que a política se faz apenas nos corredores do poder, mas nós, nas mais pequenas coisas, através das nossas vivências, da nossa relação com os outros, somos agentes da polis. São, no fundo, as pequenas coisas que influenciam as grandes.

Enquanto artista, este é o espetáculo mais arriscado que criaste?

Penso muitas vezes sobre se ao me expor tanto virei a encontrar margens para me proteger. Mas esta é a inevitabilidade da arte. A arte é, muitas vezes, um exercício de sacrifício pessoal, e até de ruína, no sentido em que se convive com o erro e o falhanço. Mas, neste caso, estou consciente de que só arriscando esse erro e assumindo a vulnerabilidade de me expor é que poderia abordar estes temas.

Devido à crise sanitária e aos confinamentos que suspenderam a atividade cultural, a estreia de Solo foi várias vezes adiada. Como é que os sucessivos reagendamentos influenciaram o resultado final?

Independentemente de saber sempre que o espetáculo iria acontecer (devo essa certeza ao permanente esforço do TBA), confesso que foi muito violento, sobretudo por ser uma criação que me é tão próxima. Imagina estares a pensar que só dali a um ano o vais estrear: será que faz sentido para mim; será que estou capaz de me expor? O certo é que durante muito deste tempo deixei o texto de lado, voltando a ele pontualmente. E quando isso acontecia percebia que aqui ou ali não estava a ser completamente honesta.

E a honestidade é determinante no espetáculo…

Claro que sim. Cada vez que voltava ao texto tinha um olhar mais exigente e mais consciente do que estava a acontecer à minha volta. Ou seja, pensei: vivemos um momento em que há tanto distanciamento, em que estamos todos enfiado em casa, e eu vou pôr-me num palco em algum momento para dizer o quê? Se vou falar sobre estes temas, não posso estar com meios-termos, tem de ser com toda a sinceridade. O estar isolada criou a urgência de criar pontes com quem me está a ver, isto é, de sair de um lugar um bocadinho teórico e mais intelectual, e passar a um lugar de maior emoção, e com isso de maior exposição. Lembro mesmo de ter alertado o Francisco Frazão [diretor do TBA] para o facto de, muito provavelmente, o espetáculo já não ir ser o mesmo. E, realmente, não é. Mas, eu gosto mais do objeto que tenho hoje em mãos [risos].

“O sonho de qualquer criador é que a criação não passe ao lado de ninguém.”

 

Queria voltar à questão da autobiografia, para lembrar como nos últimos anos se verificou uma tendência crescente para vermos mulheres levarem aos palcos espetáculos de caráter autobiográfico. Há uma urgência para isso acontecer?

Há, decerto, a perceção de existirem muitas narrativas no feminino que ficaram por contar. Aliás, há livros a sair de autoras que foram esquecidas ou menosprezadas, e até estão atualmente patentes uma série de exposições que revelam mulheres que tiveram um papel relevante na arte ou na sociedade. Neste momento, finalmente, há espaço e uma atenção coletiva crescente para valorizar as liberdades individuais e a diferença ou, para usar uma palavra que me parece mais ajustada, a especificidade de cada pessoa. Toda esta amálgama de possibilidades de ser e estar, de nos sentirmos bem com a nossa identidade e de a exprimirmos parece ser mais valorizada, embora, em paralelo, surjam discursos em sentido contrário. Mas, acho que é aí que entra a urgência de mais mulheres exporem as suas narrativas, de abordarem temas que as afetam, como a violência doméstica, o assédio sexual, as desigualdades salariais, etc. E depois há ainda as questões da identidade de género que, somadas, formam todo um conjunto de narrativas muito importantes, e que enriquecem bastante a nossa possibilidade de compreensão do mundo.

E porque é que te parece haver tão poucos homens a, digamos, encetar o seu contributo artístico neste campo?

A causa poderia estar no facto de ter sido o olhar masculino a pautar a criação artística até aos nossos dias. Mas, creio que a verdadeira razão passa por muitos homens ainda sentirem não ser este o lugar para falarem com vulnerabilidade das suas histórias e vivências, à semelhança daquilo que muitas mulheres artistas estão a fazer.

Curiosamente, muitos dos temas abordados em Solo tiveram também uma intensa exposição mediática desde o início da pandemia, não só os relacionados com os direitos das mulheres, mas também os das comunidades LGTBIQ+, ou até o debate em torno da urgência da linguagem neutra e inclusiva. O facto destes temas terem estado tantas vezes em agenda desde março do ano passado influenciou-te de algum modo?

Não sinto que o tenham feito, embora reconheça a necessidade de ter de assumir uma ainda maior responsabilidade. São coisas muito sérias, mas a arte é também uma coisa muito séria, embora creia que possamos falar de qualquer tema, mesmo que seja a brincar – lembro, por exemplo, O Eterno Debate [peça de Teresa Coutinho estreada em 2020, que deu sequência a um projeto para televisão disponível na RTP Play]. Mas, em relação a este espetáculo, reconheço sobretudo a responsabilidade que é estar a inscrever no palco aquele discurso, aquelas imagens, aqueles códigos, sem deixar de tornar claras algumas questões. Se elas serão ou não bem compreendidas, já é outra história, até porque Solo tem também elementos ficcionados, tem a nostalgia, tem o lirismo… Não pretendo de modo algum que o espetáculo se confine num discurso panfletário.

O que gostavas, no final do espetáculo, que o público levasse consigo?

Como qualquer criação artística, gostaria que pudesse reverberar, que pudesse inquietar – aliás, a inquietação interessa-me especialmente, bem mais do que saber se as pessoas gostam ou não. O sonho de qualquer criador é que a criação não passe ao lado de ninguém. Para ser muito sincera, a minha maior ambição é que, amando ou odiando, pensem nele.