José Pinho

O diretor artístico do Festival Lisboa 5L apresenta a primeira edição do evento

José Pinho

A primeira edição do Festival Lisboa 5L decorre ao longo de cinco dias, entre 5 e 9 de maio, em diversos locais do eixo Baixa/Chiado. O livreiro, fundador da Ler Devagar e figura incontornável do Festival Literário Internacional de Óbidos, José Pinho é o diretor artístico deste novo festival da cidade, e aqui apresenta as linhas gerais da iniciativa e sua programação.

Como surge o Festival Lisboa 5L e quais os seus objetivos?

O Festival é uma iniciativa de Camara Municipal de Lisboa. Em 2019 foi lançado um concurso público para a direção artística a que concorri, e ganhei. Preparámos a edição de 2020, mas de repente apareceu-nos este vizinho inconveniente chamado Covid e não conseguimos fazer particamente nada, excepto o Dia Mundial da Língua Portuguesa, com um programa para as escolas e bibliotecas chamado A Janela, dedicado à formação de leitores, e a parceria com o IndieLisboa sobre literatura e cinema. Todas as outras actividades passaram para este ano. O evento tem particularidades que o distinguem dos outros festivais portugueses e internacionais. Pretende celebrar as várias dimensões da língua: a própria língua, a literatura, a leitura, o livro e as livrarias. Por isso se chama Lisboa 5LO Lugar de Todas as Letras.

O Festival está subordinado a algum tema geral?

Não. Possivelmente, quando chegarmos ao fim de cinco edições, para não repetirmos tudo, elegeremos um tema ou um autor. Por enquanto optámos pela variedade e não por um tema central.

Óbidos ou Povoa do Varzim são exemplos de cidades que desenvolvem festivais literários de sucesso. Que estratégias vai o 5L promover para envolver uma cidade tão diferente e com a dimensão de Lisboa?

Com programação em vários locais, livrarias, cafés e hotéis literários, restaurantes, praças e ruas, procurando envolver a maior parte da população que se movimenta em Lisboa. Como queríamos fazer um festival voltado para fora, não fechado entre quatro paredes, e a cidade de Lisboa é muito grande, elegemos uma zona geográfica da cidade para cada um dos festivais. A primeira tinha que ser a Baixa/Chiado, mas com um conceito alargado que vai da casa dos Bicos ao Rato e ao Cais do Sodré. Concentrar os eventos numa área limitada faz com que as pessoas se possam deslocar a pé sem necessidade de carro ou de transporte público.

Lisboa e os seus escritores é um dos temas proposto a debate. A cidade continua a seduzir as novas gerações de escritores?

A cidade de Lisboa é sedutora por natureza para escritores e não escritores. Tem uma escala diferente das outras capitais, mais intimista. É também umas das mais bem dotadas de equipamentos ligados ao livro, caso das bibliotecas municipais. Duas das mais antigas livrarias do mundo estão em Lisboa; a Bertrand e a Ferin. Ao preparar o festival fiquei a saber de muitos escritores de outras latitudes que aqui vivem permanentemente ou uma grande parte do ano. A cidade é amiga das artes e da literatura, tornando fácil o contacto com esse universo. Os escritores mais conhecidos de Portugal, incluindo o Nobel da Literatura José Saramago, têm uma associação a Lisboa, e isso faz com que na cidade se possam encontrar referências permanentes aos autores literários do passado e do presente. Tudo isto faz de Lisboa uma cidade procurada por escritores, leitores e por todos os interessados nas áreas da leitura e dos livros.

Nem só de literatura vive o 5L. Quer contextualizar a presença de outras áreas como o cinema, a musica, as exposições e o roteiro performativo?

Nem só de literatura vive o homem, mas a maior parte das outras artes vivem da literatura e foi isso que quisemos mostrar. O cinema, o teatro, a dança e até a pintura. Por isso além de atividades ligadas ao livro impresso, associámos à influência que a palavra tem nas outras artes. Caso do ciclo Cinema e Literatura, de um itinerário teatral nas ruas e praças de Lisboa construído a partir de obras literárias, de percursos literários, e dos concertos que também tem por objetivo salientar a palavra. A programação inclui uma mostra de 45 cartas antigas expostas em muppies ilustradas por vários artistas visuais.

O hábito da leitura adquire-se sobretudo na infância. O festival integra programação dedicada aos mais novos?

Até aos seis, sete ou oito anos todas as crianças têm uma relação muito estreita com o livro em papel. A área do livro que em Portugal mais tem crescido é, justamente, a infantil. Depois dá-se um afastamento do livro e criam-se outros centros de interesse. Penso que temos a obrigação de viciar esses jovens na leitura. Nesse sentido o Festival desenvolve o programa A Janela em torno de 25 livros escolhidos por uma curadoria nossa, propondo leitura, exercícios e interpretação a partir de cada obra. É um projeto que envolve a comunidade de bibliotecas, das escolas, dos professores e alunos.