Maria do Céu Guerra

“O mundo pede que sejamos heróis, mas muitos de nós não o conseguem ser”

Maria do Céu Guerra

Ao descer a escadaria que separa o mítico espaço de café-concerto d’ A Barraca da sala de teatro, à entrada do edifício do Cinearte, vislumbra-se no olhar, sublinhado no rosto com máscara, todo o entusiasmo com que Maria do Céu Guerra se prepara para estrear a primeira peça de teatro escrita pelo seu “querido Tchekhov” há mais de 130 anos. Há o sentimento especial de “quase recomeço”, como nos confidencia minutos antes de se entregar à câmara fotográfica e, posteriormente, à conversa. Um Ivanov – Ensaio sobre a mentira marca o regresso da companhia de teatro A Barraca a casa, quase 10 meses depois de ter fechado portas devido à crise sanitária. A estreia está agendada para 14 de janeiro.

Talvez devêssemos começar por esclarecer o porquê do seu espetáculo anteceder o título original da peça de Anton Tchekhov com o artigo indefinido “um”…

Em primeiro lugar porque é uma dramaturgia, uma adaptação e um olhar sobre a peça. Em segundo, Ivanov é escrito apontando duas razões: o repúdio pela mentira e pela intriga, e a compreensão humanista por todas as personagens – aliás como é característica de todas as suas obras, que nunca acusam nem criticam, deixando ao público a avaliação moral sobre as personagens. Neste caso, a mentira é repugnante, e como nós vivemos na era das não-verdades e das fake news, isto ganha um especial relevo. Outra coisa muito importante em Ivanov é o acentuar feito à possibilidade das pessoas não serem heróis, de poderem estar deprimidas, de não terem resistência ou resiliência, e não passarem a ser bandidos por causa disso.

Essa fraqueza ou incapacidade de ação das personagens é algo muito presente na literatura do final do século XIX.

Estava na moda por via dos pós-românticos, pelos “Baudelaires” e os poetas do spleen, e o Tchekhov vai escrever alguma coisa sobre isso. Mas não lhe chegou, e acaba por ir mais longe ao tratar o entorno daquela depressão que atinge o protagonista. E eu achei muito interessante enfatizar tudo isso, colocando o foco na mentira que mata e no direito a que todos temos de não conseguir resistir ao infortúnio…

Direito esse, de novo, muito em causa, agora não tanto pelo darwinismo social, mas por via do pensamento neoliberal.

Porque o mundo de hoje pede que sejamos heróis, mas muitos de nós não o conseguem ser. Isso acontece com muitos dos nossos semelhantes; e acontece com o Ivanov que, num ano, deixou de ser o homem forte e resistente, um semi-intelectual e proprietário rural, e passou a ver a vida desenvolver-se num sentido negativo, tornando-se depressivo. Refém de dívidas, passa por infortúnios, torna-se vítima da má-língua. E tudo aquilo que o repugna acaba por lhe ser imputado.

Chegou a referir não saber, quando começou a pandemia, se devia continuar a trabalhar esta peça. Mas, pelas suas palavras, parece perfeita para o agora.

Estávamos a começar a ensaiá-la em fevereiro, portanto, pouco antes de começar o desastre em que nos encontramos. Durante o confinamento pensei em abandoná-la mas, a dada altura, percebi que se isto é sobre a mentira, sobre a importância dos outros em nós e nós nos outros, sobre a capacidade e a incapacidade de resistência, nada poderia ser mais atual.

Terá sido a experiência do confinamento a dar essa luz sobre a peça e, consequentemente, a indicar o caminho que iria tomar a sua encenação?

A minha encenação é focada no sentido daquilo que ressalvei anteriormente. Dai o “Um” a anteceder o título original, embora esses sejam os temas da peça. Durante o período em que estivemos fechados em casa, ocorreu-me que, se calhar, devia fazer outra coisa que tivesse mais a ver com o momento. Mas, nesse período percebi: “isto”, o Ivanov, é o momento. Aliás, é um texto sobre todos os momentos difíceis porque passamos ao longo da vida, e por que passaram tantos outros que nos antecederam, noutras crises, noutras catástrofes.

“A peça opõe Ivanov, ‘o fraco’, ao seu inimigo Lvov, ‘o honesto, o sério’, o que passa a vida a julgar o ‘fraco’ a partir dos seus preconceitos. Ora, no mundo há muitos Ivanovs e Lvovs.”

Portanto, esta é a peça que encaixa no aforismo da “espada desembainhada contra a mentira e a demagogia” dos tempos, de que fala no texto de apresentação do espetáculo?

Eu acho que sim. Aliás, penso que essa era a intenção do Tchekhov no seu tempo, porque a peça opõe Ivanov, “o fraco”, ao seu inimigo Lvov, “o honesto, o sério”, o que passa a vida a julgar o “fraco” a partir dos seus preconceitos. Ora, no mundo há muitos Ivanovs e Lvovs. É muito engraçado como o autor, em carta a um amigo (que decidi traduzir para o programa do espetáculo), escreve: “se o público sair do teatro com a convicção que os Ivanovs são uns malandros e os doutores Lvovs são grandes pessoas, só me resta retirar-me e enviar ao diabo a minha pena.”

Será que a pandemia não nos terá tornado a todos personagens num drama tchekhoviano?

Talvez. As personagens do Tchekhov são um convite à reflexão sobre o que é o ser humano, no sentido de todas terem o bom e o mau, de mostrarem o quão difícil é ser pessoa. Agora, aquilo de que estou certa é que o contexto da pandemia só agudizou o que já estava mal no homem e na nossa sociedade, da saúde à educação, passando pela economia ou pela cultura. Mas tenho a esperança de que estes tempos tão difíceis acabem por ser uma revelação para todos nós. Digo-o no sentido do caminho que temos feito até aqui, na nossa relação com os outros ou com a natureza, o modo como vivemos e olhamos para as nossas necessidades. Até as culturais que, creio, uma larga maioria das pessoas não reconhece.

Entristece-a a falta de reconhecimento para com a cultura?

Infelizmente, a cultura nunca ganhou o estatuto de bem essencial. Para muitos ainda somos vistos como os párias, os preguiçosos, os neurasténicos, os que não têm resiliência. Por cá, a cultura foi sempre olhada como algo que não faz muita falta – não se come poesia nem pintura, não é? Mas mantenho a esperança de que, com toda esta crise, algo venha a mudar. Veremos!

Como é que tem sido, para uma companhia de teatro independente como A Barraca, sobreviver neste tempo?

Difícil. A nossa prioridade foi manter todas as pessoas que trabalham connosco, e até aqui conseguimos. Mas, A Barraca vive dos apoios do Estado, dos contratos com o sistema de ensino e do público. Ora, a bilheteira significa mais de um terço da receita da companhia, e ela desapareceu praticamente desde março, embora, nos meses de verão, tenhamos feito um conjunto de espetáculos [A Barraca a Céu Aberto] no Jardim de Santos. Porém, como tínhamos muito medo, limitámos tanto as lotações que a receita foi residual.

Isso obrigou Um Ivanov a ser um espetáculo adaptado às dificuldades?

É um espetáculo muito austero em termos de montagem, mas isso permitiu-nos um exercício muito interessante, com um conjunto de cadeiras a criar diversos climas e uns três ou quatro adereços muito impactantes. O verdadeiro investimento e a paixão d’ A Barraca são os textos e os atores, e é com isso que trabalhamos.

E como está a ser para os atores trabalhar neste contexto?

Mantêm a paixão e o entusiasmo de sempre. Não nego que há medos para vencer, que há uns raros constrangimentos que surgem, mas confesso que há muito tempo que não tinha tanto prazer a ver os atores crescerem em cena. É um regresso à vida para nós, e espero que o público nos acompanhe. O maior medo que tenho é, precisamente, que o público não venha, que se tenha habituado demasiado ao sofá. Porque o nosso trabalho só faz sentido com o público na sala.