Elmano Sancho

Em 'Damas da Noite', "o lado alegre do universo drag mascara assuntos sérios e delicados"

Elmano Sancho

Em paralelo à brilhante carreira de ator no teatro, cinema e televisão, Elmano Sancho tem desenvolvido, ao longo dos últimos anos, um percurso vibrante enquanto criador e encenador. O primeiro espetáculo que dirigiu foi Misterman, de Enda Walsh, em 2014, tendo-se seguido projetos onde, para além da encenação e interpretação, assumiu a autoria do texto: I Can´t Breathe (2015), Não quero morrer (2016), A última estação (2018) e, agora, Damas da Noite, Uma Farsa de Elmano Sancho, espetáculo sobre identidade e transformação onde o ator contracena com drag queens. Estreado o ano passado no TECA, no Porto, a peça vai estar em cena na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, a partir de 20 de março.

Em A Última Estação, o ponto de partida foi a tua semelhança física, plasmada numa fotografia, com o assassino em série Ted Bundy. Agora, recuperas uma história de família sobre as expetativas do teu pai quanto ao bebé que haveria de se chamar Elmano…

Depois de terem tido um filho, os meus pais convenceram-se de que iriam ter uma menina de nome Cleópatra. No espetáculo, parto da suposição de ter nascido menina, questionando que mulher me teria tornado hoje. Nesta ficção, e é importante recordar que é uma ficção, essa figura que nunca existiu chama-se Cléopâtre.

Porque convidaste o Pedro Simões (Filha da Mãe) e o Dennis Correia (Lexa BlacK), dois drag queens, para o espetáculo?

Além de dragqueens, o Dennis Correia é licenciado em Teatro pela ESTC e o Pedro Simões em Dança pela Escola Superior de Dança. Estão habituados a criar esse outro eu, não só para uma performance enquanto drags mas também para um espetáculo de teatro. A imagem foi, desde logo, muito importante: a Lexa BlacK é muito feminina, mais próxima daquilo que se “julga” entender como feminino, enquanto que a Filha da Mãe tem barba. O processo de construção das personas deles é aplicado meticulosamente para tentar dar vida à figura da Cléopâtre. Qual será a sua aparência? Para tal, interessou-me estudar as características do transformismo dos anos 80 e 90 do século passado, que procurava aproximar-se e ser fidedigno à imagem da “mulher “ e o drag do século XXI, que acompanha a própria evolução do que se entende hoje como género.

Eles foram essenciais no processo criativo?

Foi com eles que procurei encontrar essa figura feminina, e digo “figura” porque não sei se é uma personagem. E talvez não devesse dizer feminina…

Porquê?

Porque não sei o que a Cléopâtre é. Ainda estou a tentar perceber isso com a ajuda do Dennis e do Pedro.

Pedro Simões (Filha da Mãe) e Dennis Correia (Lexa BlacK), dois drag queens, partilham o palco com o autor, encenador e ator. ©Sofia Berberan

 

Como foi trabalhar com drag queens?

Desde o I Can´t Breathe que tenho trabalhado com pessoas que, embora ligadas ao espetáculo, às artes performativas, ao trabalho de ator e à transformação, se encontram na margem, afastadas daquilo que consideramos o centro. São parceiros fundamentais para analisar alguns fenómenos atuais. No caso da Ana Monte Real, atriz de filmes pornográficos, para tentar entender o novo conceito de pornografia na sociedade contemporânea, e com a Lexa BlacK e a Filha da Mãe, drag queens, para explorar a complexidade do que entendemos por identidade.

Não temes que a convocação de artistas “não convencionais” ganhe protagonismo sobre a essência do espetáculo?

O tema principal deste espetáculo não é sobre os performers envolvidos, embora o corpo deles convoque temáticas como transformismo ou género, como é o caso de Damas da Noite. Isso já acontecia em I Can’t Breathe. A presença de uma atriz porno trazia o universo da pornografia para a cena, e no entanto, não havia qualquer toque entre nós, nem tão pouco nudez. Nas Damas da Noite, fala-se, essencialmente, de teatro. Somos convocados para tentar explorar algo muito maior do que nós.

“A ideia da biografia é o trampolim para aceder a uma ficção que acaba por se tornar ainda mais real.”

 

Mas, ao mesmo tempo, o ponto de partida dos teus espetáculos são biográficos…

Trabalho com a dualidade do que se considera ser verdade e mentira. No I Can´t Breathe, perguntavam-me muitas vezes se a história da Ana Monte Real era verídica. Para quem procurou, nesse e noutros espetáculos, resgatar o mistério e a ilusão perdidas na “sociedade da transparência”, revelar essa informação não é importante e muito menos essencial. Há elementos biográficos e há elementos da ficção, como em qualquer obra. Gosto da ideia da biografia como o trampolim para aceder a uma ficção que acaba por se tornar ainda mais real.

Damas da Noite subintitula-se Uma Farsa de Elmano Sancho. Porquê a “farsa” e o nome próprio?

O título é uma metáfora. As damas da noite são flores que abrem à noite, deitam um cheio muito intenso e fecham-se quando o dia nasce. Tal como esses homens que se transformam à noite e, de dia, voltam às suas vidas quotidianas, muito embora, hoje, os drag queens vivam também de dia. Ao mesmo tempo, a flor tem uma simbologia feminina forte. O subtítulo surgiu à medida que fui construindo o espetáculo e me apercebi que estava perante uma farsa. Pareceu-me evidente que o público também o deveria saber antes de entrar na sala de espetáculos.

Enquanto criador, os teus espetáculos têm tido a particularidade de serem, também, apresentados fora dos grandes centros urbanos, em cidades mais pequenas. Como tem sido levar estas propostas a públicos que têm um contacto menor com objetos artísticos tão transgressores e experimentais?

A reação que tenho considerado mais interessante é quase sempre em relação ao texto, mesmo com aqueles que não são meus, como no caso das digressões com os Artistas Unidos. Para além disso, apresentar as Damas da Noite numa cidade do interior com dois drag queens provoca naturalmente mais curiosidade do que aqui em Lisboa ou no Porto e a tensão criada entre os espectadores e os intérpretes acaba por ser maior ou, pelo menos, sentida com mais intensidade. Por fim, a temática, por si só, parece criar, desde logo, todo o enquadramento necessário para que afrontemos esta transformação. Afinal, o lado alegre que caracteriza o universo drag acaba por mascarar, ainda que temporariamente, assuntos sérios e delicados.