Os livros de setembro

Os livros de setembro

Todos os meses são bons para ler e setembro não é exceção. Propomos oito livros susceptíveis de agradar a um amplo leque de leitores. O Fiel Defunto, o mais recente romance de Germano Almeida, Premio Camões 2018, deliciosa brincadeira sobre o universo da literatura; Da Vida da Obra Coreográfica, um livro que celebra os 40 anos de actividade da Companhia Nacional de Bailado; Punhais Misteriosos, narrativa do pioneiro português do romance policial, uma obra sobre o Budismo Zen de autoria do filósofo coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han; Rimas de Petrarca, o pai do soneto; e um clássico de ficção científica, Fahrenheit 451, de perturbadora atualidade. Por fim, dois livros infanto-juvenis do grande poeta Ted Hughes que, pela sua extraordinária qualidade literária, podem satisfazer o leitor adulto mais exigente.

Germano Almeida

O Fiel Defunto

Editorial Caminho 

Quando soube que lhe tinham atribuído o Premio Camões 2018, o cabo-verdiano Germano Almeida estava prestes a lançar o novo romance, O Fiel Defunto, em que brinca com a literatura por interposto autor (Miguel Lopes Macieira) e expõe toda a sociedade no seu traço de vaidade que pode ter consequências passageiras ou decisivas. Um amor louco que conduz a um crime ou a produção literária obsessiva que leva ao fim de uma relação são situações marcadas pela autocomplacência que alimenta uma vaidade pessoal. Romance de extrema leveza de pluma, que vai desfiando estórias que divergem em mais estórias até convergirem num retrato de conjunto local mas também universal, O Fiel Defundo usa de grande coloquialidade nas variações entre discurso direto e indireto, no que pode dar a sensação de que se trata de um livro superficial. Nada mais errado. A impressão de espontaneidade decorre do talento genuíno e da maestria de quem faz uso das faculdades da escuta e da escrita. 

 

Maria José Fazenda

Da Vida da Obra Coreográfica

Imprensa Nacional

Este livro é parte das celebrações dos 40 anos de actividade da Companhia Nacional de Bailado (CNB). Maria José Fazenda, cujas páginas de crítica de dança no Público ainda estão na memória dos leitores, apresentou à então directora artística da CNB, Luísa Taveira, a proposta da travessia pela história da obra coreográfica, contextualizando cada exemplo no seu período, no meio artístico e sociocultural em que surgiu, e no âmbito do seu ressurgimento, retrabalhado pela CNB. A obra chama ainda a atenção para a responsabilidade da companhia na preservação e transmissão de um património da dança, mas também na criação contemporânea. A seleção das peças coreografadas leva em conta a cronologia que percorre os seis capítulos, a relevância artística e cultural das obras, o facto de terem vindo a ser reencenadas ao longo do tempo, e as alterações que motivaram na representação do corpo, do tempo histórico até ao presente. Entre capítulos surgem páginas a negro, recheadas com fotos do Arquivo CNB

 

Reinaldo Ferreira

Punhais Misteriosos

PIM! Ediçoes 

Escrita em Espanha, foi publicada em Portugal entre agosto e novembro de 1924, nas páginas do matutino Correio da Manhã, com o título Punhais Misteriosos e a assinatura de Edgar Duque, outro dos pseudónimos de Reinaldo Ferreira, antes de adotar o definitivo Repórter X. A história, protagonizada por um jovem oficial do exército espanhol que se perde de amores por uma “mourita encantada” no icónico Palace Hotel do Buçaco, desencadeando várias peripécias que levam o leitor até Madrid, Barcelona e aos confins de Marrocos, foi adaptada ao cinema pelo próprio Reinaldo. O filme foi um fracasso e, após uma única projecção em Lisboa, desapareceu quase sem deixar rasto. Esta grande narrativa do pioneiro português do romance policial, na qual, segundo o autor, “vibra a sentimentalidade portuguesa, capaz dos maiores sacrifícios e o orgulho inato do castelhano, que é mantido através de todas as contrariedades”, é agora reeditada com uma introdução de Joel Lima, capa de Nuno Saraiva e múltiplos recortes de imprensa.

Byung-Chul Han

Filosofia do Budismo Zen

Relógio D’Água

Filosofia do Budismo Zen é o décimo livro do filósofo coreano radicado na Alemanha que a Relógio D’Água publica a um ritmo assinalável. As obras deste autor são invariavelmente livros curtos que atraem igualmente pelos títulos que apontam sintomas ou preocupações das sociedades contemporâneas. Exemplos: A Sociedade do Cansaço, A Agonia de Eros ou A Expulsão do Outro. O budismo zen caracteriza-se por um cepticismo face à linguagem e uma desconfiança relativa ao pensamento conceptual. Em vez de palavras, escolhe silêncios. E coloca enigmas onde esperaríamos encontrar respostas. Byung-Chul Han compara os pontos de vista filosóficos do budismo zen com exemplos dos trabalhos de Platão, Leibniz, Fichte, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger. Dizer o que este livro é vai contra a natureza do seu tema. A leitura, pontuada pelos haikus citados, visa criar no leitor uma predisposição para se desapegar de si mesmo, dissolvida a rigidez substancial de tudo.

 

Francesco Petrarca

Rimas

Quetzal

Francesco Petrarca (1304-1374), humanista e filósofo, uma das referências fundamentais da literatura ocidental, foi o pai do soneto, cuja estrutura aperfeiçoou de forma inovadora e definitiva, e que não deixou de inspirar muitos outros poetas até aos dias de hoje. Petrarca dedica a maior parte dos poemas reunidos em Rimas ao amor (à frustração amorosa) e a Laura, uma “musa impossível”. Subsistindo embora dúvidas quanto à identidade da destinatária destes versos (“aquela entre as mulheres que é sol”), Vasco Graça Moura, tradutor da presente obra, refere, na introdução, “a existência de documentos importantes da autoria do próprio Petrarca que apoiam a tese da existência de Laura na vida real”, não se tratando, pois, de uma mera “ficção alegorizante”. Esta tradução venceu o Prémio Internacional Diego Valeri (2004) que, desde 1971, distingue traduções de obras de Petrarca. “Uma aposta impossível” que Vasco Graça Moura tentou apenas quando se sentiu preparado para o fazer, depois de ter lido Camões e outros petrarquistas europeus.

 

Ray Bradbury

Fahrenheit 451

Saída de Emergência

Fahrenheit 451 é um o único grande romance distópico do século XX escrito por um autor de ficção científica. Admirável Mundo Novo, 1984 e A História de uma Serva saíram todos da pena de escritores “mainstream”: Aldous Huxley, George Orwell e Margaret Atwood. Numa sociedade do futuro alicerçada no prazer, no entretenimento, na excitação e no esquecimento, os bombeiros ateiam fogos, não os apagam: destroem os livros proibidos e as casas onde estão escondidos. Montag, um desses bombeiros, cruza-se acidentalmente com uma jovem que lhe fala da memória de um passado diferente. Subitamente, apercebe-se que vive numa comunidade onde as pessoas se limitam “a dizer coisas” e os livros são proibidos porque “falam sobre o sentido das coisas”, decidindo trilhar os caminhos da dissensão. Esta obra profética, agora numa cuidada edição com um excelente posfácio de João Seixas, é também uma eloquente homenagem ao poder transformador da literatura e ao livro, “única peça feita da costura de vários bocados do universo”.

Ted Hughes

O Homem de Ferro

Ponto de Fuga

Os poetas Ted Hughes (1930-1998) e Sylvia Plath (1932-1963) formaram um dos mais famosos casais literários da segunda metade do século XX. Estes dois volumes infanto-juvenis, ilustrados com expressivas xilogravuras de Andrew Davidson, foram dedicados pelo escritor aos seus filhos, Frieda e Nicholas. O Homem de Ferro, originalmente publicado em 1968, narra a história de um gigante que, vindo não se sabe de onde, salva a terra num momento delicado de crise, a era da Guerra Fria e da ameaça nuclear. Um quarto de século depois, o poeta cria uma sequela que tem a Mulher de Ferro como protagonista. Estas duas belíssimas obras fazem eco das preocupações pacifistas e ambientais do poeta.

 

Ted Hughes

A Mulher de Ferro

Ponto de Fuga

Nesta sequela, a luta trava-se contra os excessos do capitalismo selvagem e a industrialização desenfreada que consome os recursos naturais e ameaça os ecossistemas do planeta. A Mulher e o Homem de Ferro, figuras herdadas do universo da ficção científica, aparentemente temíveis e ameaçadoras, mediadas por duas crianças, Hogarth, um rapaz desgrenhado, e Lucy, uma rapariga pálida, tornam-se nos melhores aliados da humanidade. No volume de poesia Cartas de Aniversário, obra de profundo pendor autobiográfico, o autor confessa: “Aos vinte cinco anos estava de novo pasmado / com a minha ignorância das coisas mais simples”. Quando concebeu estes dois livros, Ted Hughes já sabia tudo “das coisas mais simples”, única forma de chegar ao coração das crianças.