Luís Vicente

"A minha leitura de 'À Espera de Godot' é assumidamente política"

Luís Vicente

Poucos ousarão pôr em causa Samuel Beckett como um dos maiores autores de teatro do século XX e, provavelmente, menos ainda terão coragem de omitir À Espera de Godot do restrito lote das peças que mudaram a face do teatro. Luís Vicente, ator e encenador, diretor artístico da ACTA – Companhia de Teatro do Algarve, estreia no Teatro da Trindade uma nova montagem da obra-prima do dramaturgo irlandês, propondo, à luz desta, um olhar incomodado sobre o mundo que vivemos.

Independentemente da intemporalidade do texto, porquê fazer À Espera de Godot agora?

O acontecimento determinante foi a falência do Lehman Brothers, em 2008. Isso e tudo aquilo que se foi desencadeando até aqui, nomeadamente a recente falência de um banco como o Espírito Santo, remeteram-me para um conjunto de reflexões de ordem ontológica, social, ética, moral, e até mesmo espiritual… Penso, por exemplo, no meu pai que, sem ter perdido um cêntimo no Espírito Santo, declinou espiritual e fisicamente. Por uma razão: à semelhança de tantos portugueses, aquela que para ele era uma instituição referencial e ímpar de honra e honestidade traíra-o. Como não dissocio o meu trabalho da realidade do mundo, considerei À espera de Godot a peça onde tudo isto se encontra plasmado como em nenhum outro texto dramático.

De que modo?

O texto de Beckett é a nossa vida. Vladimir e o Estragon, os dois vagabundos em fase terminal que estão no centro da peça, podem ser qualquer um de nós em alguma parte do mundo. A minha leitura da peça é assumidamente política, sem com isso comprometer um questionamento mais geral. Sobretudo porque me importa olhar aquilo que acontece ao ser humano, ao seu relacionamento consigo mesmo e com os outros, perante acontecimentos geradores de processos de correlação, como são estes casos que começaram no universo financeiro e se replicaram sobre a sociedade.

Beckett nunca quis esclarecer quem é Godot, mas houve quem avançasse ser Deus. Na sua leitura, quem é este personagem-mistério por quem se espera?

Godot tem a particularidade de poder representar uma série de coisas mediante a leitura que se faz a peça. Nesta minha abordagem é objetivamente o dinheiro. Tenho bem presente as palavras de um prelado que há umas semanas falava do “deus-dinheiro”, um sentido pejorativo para sublinhar o que substituiu a espiritualidade nos dias de hoje.

Como é que o público vai alcançar este seu ponto de vista sobre a peça?

Utilizando estritamente o texto do Beckett. Está lá tudo. Se bem que, quando foi escrita, em 1948, a peça apontava para alguma esperança, fazendo umas folhas despontar numa árvore no segundo ato, fazendo a lua brilhar sobre a cena… Mas nisso, não acredito! Realisticamente, tudo o que tem acontecido no mundo desde a queda do Muro de Berlim apontou para a ausência de esperança verdadeira. A esperança é hoje uma ilusão, um engodo para continuarmos a chafurdar no lodaçal em que vivemos.

Mas o teatro, tal como outras artes, não poderão contribuir para devolver alguma esperança verdadeira?

Em dezembro passado, na Gulbenkian, Charles Esche, um dos mais distintos curadores mundiais, falava da falência do conceito de “arte pela arte”. Aos criadores artísticos, desafiava-os a criarem alternativas e rematava com uma ideia que partilho: “vivemos tempos assustadores, precisamos de conceitos assustadores”. No modesto papel que me cabe, penso ter alguma coisa a dizer por via do teatro. Por isso, com este À espera da Godot, recuso vender falsas esperanças. Que seja este um meu “conceito assustador”…

Roger Blin, o encenador responsável pela primeira montagem da peça em 1953, disse que À espera de Godot alterava a própria “condição teatral”. Partilha dessa ideia?

Absolutamente. Estou muito habituado a dirigir projetos onde entro também como ator, mas neste, devido a todo um trabalho de pormenor, é especialmente difícil. Por outro lado, o próprio conceito de narrativa dramática não existe aqui. Existem fragmentos narrativos e aquilo que um grande teórico brasileiro designou como “uma espécie de palimpsesto”, ou seja, uma camada superficial que vamos esgravatando, surgindo uma outra, e outra, e ainda mais outra… Podemos dizer que isso também acontece nas peças de Shakespeare, mas aqui há a ausência de narrativa e a história que a peça conta acaba por ser aquela que nós lá queremos colocar.

A conceção plástica do espetáculo está a cargo de Jean-Guy Lecat, um grande cenógrafo que tem a particularidade de ter trabalhado com Beckett. Essa experiência foi relevante na criação do espetáculo?

Quando comecei a desenvolver o projeto, perguntei ao Jean-Guy como é que ele imaginava a reação do Beckett a um olhar como este sobre a peça. Fiquei a saber que o próprio autor questionava alguns elementos, como a existência da árvore ou o pretenso ambiente rural, que não vão existir no nosso espetáculo. Na verdade, o Jean-Guy lembrou-me que o próprio Beckett foi reescrevendo a peça ao longo de vários anos, o que me despertou para a necessidade de recorrer à dramaturgista e tradutora Ana Clara Santos, abandonando assim a versão traduzida pelo José Maria Vieira Mendes. No fundo, as conversas com o Jean-Guy estimularam-me bastante a prosseguir esta perspetiva pessoal sobre o texto.

É um privilégio trabalhar com uma personalidade como o Jean-Guy Lecat?

O Jean-Guy é um ser humano extraordinário, um homem de teatro respeitado em todo o mundo. Imagina-se que não lhe posso pagar o que as companhias norte-americanas ou francesas lhe pagam. Mas isso, para ele, não é um problema. Envolve-se, procura ir ao encontro do que os encenadores querem. É um enorme privilégio ter a experiência de ir trabalhando pontualmente com uma figura desta dimensão.

Pedro Lima e Pedro Laginha foram os atores escolhidos para protagonizarem Estragon e Vladimir. O que motivou esta escolha?

Mediante as minhas leituras recorrentes da peça, que praticamente me acompanha diariamente há mais de um ano, considerei várias hipóteses. Percebi que um dos personagens é mais impetuoso e vibrante, o outro mais calmo e ponderado. Logo, o perfil do ator teria de ter isso em consideração, nomeadamente a velocidade de elocução. O reconhecimento e a ponderação dessas características levaram-me a escolher estes colegas.

Para terminar, acha que o mundo de hoje é mais “absurdo” do que À Espera de Godot?

A peça é sobre a condição humana, e esta continua a ser absurda.