Homenagem a Urbano por Miguel Real

Homenagem a Urbano por Miguel Real

Miguel Real, romancista, ensaísta, professor de filosofia e crítico literário, presta tributo à obra de Urbano Tavares Rodrigues por ocasião do desaparecimento do grande escritor e recomenda a leitura do seu penúltimo livro composto pelas novelas Escutando o Rumor da Vida e Solidões em Brasa, edições Dom Quixote.

HOMENAGEM A URBANO
 

 Ao longo da sua vida estética, Urbano Tavares Rodrigues (UTR) revolucionou tudo em que tocou. Ensaio, romance, ensino, crítica literária. E hoje, no século XXI, UTR continua a ser – espantosamente - o escritor revolucionário que em 1959 lançou Bastardos do Sol e em 1961 Os Insubmissos, cortando com um neo-realismo já fossilizado, não obstante os grandes romances e novelas de Alves Redol (que, não por acaso, publica esse ano Barranco de Cegos, porventura o seu melhor romance) e Soeiro P. Gomes da década de 40 e os de Carlos de Oliveira e Fernando Namora na de 50. Com efeito, Bastardos do Sol estatuiu-se como uma nova figuração estética do neo-realismo, acolhendo influências existencialistas, moda literária que Vergílio Ferreira cristalizara em Aparição (1959). Porém, ao existencialismo filosófico, UTR acrescentou a singularíssima questão da sensualidade e do erotismo dos corpos, a que o pudor de Vergílio Ferreira não tinha dado resposta. Verdadeiramente, a inovação trazida por UTR ao romance português na década de 60 (a interrogação sobre o corpo e a beleza, a fruição angustiante da liberdade individual, a consciencialização do absurdo da existência face à inevitabilidade nadificante da morte, a descrição da pobreza) radicava, seminalmente, menos na influência neo-realista ou existencialista, e mais na devoção pela obra de Manuel Teixeira Gomes, então resgatada para a actualidade literária pela mão dedicada de Urbano. Da obra de M. Teixeira Gomes, derivou o olhar sensual e a preocupação social que desde sempre alimentaram a escrita de Urbano.
Maria Graciete Besse, em livro dedicado à vertente ficcional de UTR, registou que na escrita deste autor “articulam-se variados percursos que correspondem a modulações do confronto do escritor consigo mesmo e com o mundo, traduzindo a experiência agónica de uma época e a indefectível crença num humanismo restaurador da esperança” (Discursos de Amor e Morte. A Ficção de Urbano Tavares Rodrigues, 2000, p. 105). O próprio UTR escreveu que a sua escrita foi norteada pelo “drama do homem perante a existência” (o existencialismo) e pelo “drama do homem perante as circunstâncias, ou a sua situação” (o realismo) (Noites de Teatro. I, 1961, p. 13).
Nos últimos romances, contos e novelas, publicados já este século (sobretudo a partir de O Eterno Efémero, 2005, e incluindo a novela histórica Os Cadernos Secretos do Prior do Crato, 2007), o olhar sensual de UTR tinha vindo a derivar para um explícito erotismo, de que é exemplo maior o seu penúltimo livro, Escutando o Rumor da Vida seguido de Solidões em Brasa, publicado o ano transacto com belíssima capa de Rui Garrido. Porém, o sexo e o erotismo de UTR, ainda que explícitos, possuem sempre um duplo sentido, enformado pela vinculação a uma filosofia existencial e pela adesão a uma narração e descrição realista. Isto é, a fenomenologia do sexo e do erotismo nos seus livros (não esqueçamos ter sido UTR o tradutor de Histórias Eróticas, de G. Bocaccio, em 1972) esconde, não raro, a evidenciação de uma posição socialmente decadentista, na qual a irrupção do instinto sexual segue solta e descontrolada.
É justamente – parece-nos – o que UTR intentou mostrar em Escutando o Rumor da Vida seguido de Solidões em Brasa. De fio a pavio, as duas novelas são dominadas pela obsessão sexual presentes na maioria das personagens. Porém, através desta obsessão dos múltiplos narradores, o autor intentaria evidenciar que o amor – sentimento fundamental da existência humana - deixa de o ser em sociedades e situações decadentistas, corrompidas pela promiscuidade e pela degradação do corpo, pelas quais os instintos humanos se animalizam e os valores nobres se apagam face ao império do corpo e do dinheiro. Assim interpretamos Escutando o Rumor da Vida seguido de Solidões em Brasa, não como um hino ao sexo, mas como explícita degradação ética do corpo. Daí os contínuos remorsos de Francisco Medeiros sempre que trai Lídia. Daí o perdão de Francisco quando Lídia se deixa beijar pelo actor norte-americano. Francisco compreende ser extremamente difícil resistir à atmosfera actual promíscua da sociedade.
Causa e efeito simultâneos, degradado o corpo humano em forma de intenso domínio do desejo sexual, exemplificado nas atitudes da personagem enlouquecida de Teresa Cordovil (corre, em Paris, que teria tido experiências sexuais com cães) e no vício de Pierrette de atingir o orgasmo por sufocação da respiração, a sociedade é estatuída como igualmente degradada. Neste sentido deve ser entendida a estrutura das duas novelas. Textos geograficamente disseminados pela totalidade do mundo, de Buenos Aires a Pequim, com o centro na Europa (Portugal, França, Itália, Espanha e Grécia), cada capítulo narra um fragmento da existência, unido à totalidade da novela, não pelo fio condutor da acção, mas pelas deambulações das personagens. Estas, com excepção de Francisco e Lídia na primeira novela, entregues a uma vida estética, emergem como peregrinos idos para lado nenhum, já que apenas o dinheiro e o sexo os poderia saciar. Teresa, Mara, Olímpio, tornado Michel Ladimi, Joaquim Avelar, tornado D’Avelar, são desenhados por UTR como seres errantes, desprovidos de valores humanísticos, desorientadamente reactivos às circunstâncias sociais.
Na segunda novela, repetem-se, como estrutura formal, o desenho de fragmentos existenciais avulsos e, como conteúdo, a imperiosa necessidade de sexo e dinheiro por parte das personagens. Vítor Córdova, a ingénua russa Sonja, Milena, Carlos Palácios, Maria Lucília Rodrigues, Giacomo, Octávio Nuñez e Júlio Travanca, Silvine, Teodato, o aleijado pervertido, o Anão (“génio do mal”, p. 117), a inocente chinesa Ui Xiu evidenciam-se de novo como seres errantes, personagens existencialmente desequilibradas, conduzindo, no final, ao suicídio apoteótico de Maria Lucília Rodrigues e de Octávio Nuñez.
Em ambas as novelas, as personagens portuguesas fogem de Portugal. Todas parecem procurar a realização fora de Portugal, como se ter aqui nascido consistisse em factor de danação.

Miguel Real
 
 
 
 
 

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