Entrevista a Samuel Úria

Entrevista a Samuel Úria

'Carga de Ombro' com amigos

Carga de Ombro, o mais recente álbum de Samuel Úria, foi lançado há um ano. Em jeito de celebração, o músico convida Ana Moura, Golden Slumbers e ainda Manuela Azevedo e Miguel Ferreira, dos Clã, para com ele partilharem o palco do Tivoli. O concerto acontece dia 27 deste mês.

As tuas músicas nem sempre são fáceis de decifrar. Contêm referências literárias, biblícas… Preocupa-te que a mensagem possa passar despercebida ou é esse o objetivo?
Em termos de encriptação ou de retirar o significado mais óbvio, proporcionar alguma descoberta ou algum mistério a quem está a ouvir é um lado que me entusiasma. A minha descoberta da poesia dentro da música e de um manancial subterrâneo que pode estar dentro das canções aconteceu exatamente com autores que me entusiasmaram em ir à procura, a desconfiar do que dizem. Não tenho pretensão nenhuma que as pessoas façam isso com as minhas músicas e até fico muito feliz se gostarem das minhas canções ao nível mais básico, de ouvirem no canto do ouvido sem pensarem no que é que elas querem dizer. Mas não me sentiria completo nem conseguiria dar uma canção por terminada se não fizesse justiça, na minha maneira de escrever, àquilo que eu gosto na minha maneira de ouvir.

Enquanto ouvinte fazes esse exercício?
Faço. Há muita gente de quem gosto e que ouço com essa distração de ouvir de passagem baixinho no rádio e de não prestar muita atenção, mas há uns quantos autores que não só faço de propósito para ir à procura, como algumas vezes há frases que me captam a atenção e que é impossível de repente não querer desenterrar e fazer a espeleologia dentro daquelas cavernas que existem nas letras deles.

É Preciso que eu Diminua é uma letra que parece ter sido retirada de um diário. É uma forma saudável de te libertares de algum tipo de complexo?
O diário exigiria algum tipo de disciplina e eu a escrever canções não o faço com uma rotina diária. Aqui é o contrário: as canções nascem porque acumulo alguma coisa por desabafar e quando chega àquele período em que tenho de escrever, sei que aquele património que ficou ali encafuado vai brotar em canções. Nesse sentido é bom não usar diários, porque quando chega a altura de ter que fazer as canções abro a torneira e a coisa sai. Esta é uma canção-lamento de alguns defeitos que eu considero que tenho, mas por outro lado é uma canção quase panaceia, uma canção-remédio, porque à medida que exponho o problema também estou a identificar a maneira de o resolver, que passa por eliminar algumas questões de ego. Até acho que não sou uma pessoa egoísta, não sou vaidoso, não sou centrado em mim mesmo mas sou como toda a gente, e o que procuro fazer na minha vida é para enriquecimento pessoal. É uma canção que identifica isso, lamenta isso e goza com isso, escarnece de mim próprio e acho que a consciência tão grande daquilo que é um problema acaba por ser uma catarse e aí funcionará como num diário, por estar a expor os meus problemas, os meus anseios.
 
O vídeo desta canção (da autoria de Pedro Serrazina) recebeu o Prémio de Melhor Filme Português na edição deste ano da Monstra. Como olhas para este tipo de distinção?
Fiquei muito surpreendido. O vídeo é de facto bom, é feito por alguém que considero um génio, uma referência incontornável na animação em Portugal. Obviamente que ligo a estes prémios, porque sou fã do cinema de animação e até vou estando dentro daquilo que se passa todos os anos na Monstra. O prémio não é meu, é do vídeo, mas senti-me ali no meio de um circuito para o qual olho com muita admiração distante. Como é uma coisa recente ainda não estou em mim. Acho que é um bocado aquele otimismo de acharmos que as coisas são tão boas que não cabem para nós.

Carga de Ombro dá nome a este disco e é também uma expressão da gíria futebolística. Pode ser interpretada como uma canção romântica?
Trazer uma expressão da gíria futebolística para uma canção romântica causa essa espécie de desconforto de estar a juntar dois mundos que não fazem parte um do outro. Para já, acho que o desconforto gera curiosidade. Se tivesse dado um título explicitamente romântico se calhar a canção tornava-se mais desinteressante. Acho que podemos recuperar substância de outros mundos e usá-la como figuras de estilo perfeitamente válidas. No futebol, a carga de ombro é se calhar a coisa mais violenta que se pode fazer dentro da legalidade e acho que muitas vezes o amor também é isso. Dentro de uma espécie de legalidade, o amor tem que nos tomar de assalto, que nos arrancar do chão e deitar abaixo, mas sem ser faltoso, sem ser uma disputa em que queremos magoar o outro. Esta Carga de Ombro funciona como um título mas é algo que descreve aquilo que é o meu amor pela minha mulher e a necessidade que tivemos de largarmos o conforto, empurrarmo-nos um ao outro e juntarmo-nos, encostarmos os ombros, carregarmo-nos um ao outro, que é uma analogia melhor do que dizer ‘juntar os trapinhos’. É uma declararação de amor e uma descrição daquilo que tem sido uma vida a dois.

Este álbum tem menos duetos que o anterior (inclui um tema com Selma Uamusse e outro com Francisca Cortesão). O que mudou no processo criativo?
O processo criativo foi diferente. Para já, foi o primeiro disco que trabalhei de raiz com o produtor. Nos outros discos já tinha as canções feitas, tinha as maquetes, e mostrei-as aos produtores antes de chegar ao estúdio. Desta vez, à medida que ia escrevendo as canções e pensando em coisas, ia logo partilhando com o Miguel Ferreira (Clã) e havia logo um feedback instantâneo do que estava a ser feito. Em relação às participações, houve uma contenção auto-imposta. O disco anterior, não sendo de duetos, quase que o era. E brotou de forma muito natural, de conhecer as pessoas, de ser amigo de músicos. Neste disco não só tenho menos participações como elas são a antítese do que tinham sido as participações no disco anterior. No disco anterior, as pessoas partilhavam praticamente metade da canção comigo e neste disco são participações de gente muito talentosa que, mesmo ficando com partes curtas da música (por ex. o David Fonseca toca bateria numa canção), é um convidado especial que não está a fazer uma coisa assim tão especial, não lhe está a dar grande relevo, mas a força do talento dessas pessoas manifesta-se por darem pormenores importantes e serem indispensáveis naquilo que estão a dar às canções. As participações não tomam o disco de assalto mas são absolutamente indispensáveis.

Em maio, recebes vários amigos no palco do Tivoli. Uma deles é Ana Moura, para cantar Cantiga de Abrigo, que escreveste para o álbum Moura. Foi um desafio escrever para o universo do fado, tão diferente do teu?
Não foi a primeira pessoa para quem eu escrevi fado, mas foi a primeira pessoa para quem escrevi uma canção de raiz que se assemelhava ao fado. É curioso que a canção que entreguei à Ana Moura, gravada por mim como rascunho, era mais fado do que aquilo que depois saiu no disco. Havia já um lado de amizade que me ligava à Ana que transformou logo a tarefa num prazer imenso. Quando escrevo as canções para mim raramente é a minha voz que ouço na minha cabeça. Canto as minhas canções mas não sou um intérprete. Considero-me mais um escritor de canções do que propriamente um intérprete. Se eu escrevesse a pensar nos tiques mais banais da minha voz, provavelmente a minha vontade de escrever iria esmorecer, ia ser uma seca escrever para mim. Escrever para a Ana Moura foi um desafio, mas por um lado havia uma rede de segurança maior por saber que qualquer coisa que escreva para ela vai sair sempre bem, esperando que a alquimia entre o meu chumbo e o ouro dela se trasnforme em ouro.

Recebes também as Golden Slumbers, para quem escreveste Para Perto. Algum dia te tinha passado pela cabeça escrever para o Festival da Canção?
Já de há muitos anos para cá que muita gente me tem perguntado porque não escrevia uma canção para o festival. Houve um convite institucional por parte da comissão organizadora do festival, que este ano decidiu convidar alguns compositores portugueses da nova geração. Confesso que, por auto-recriação, se não houvesse um convite, nunca me iria auto-propor para escrever uma canção para o festival. Não é qualquer tipo de sobranceria ou de falta de respeito até porque gosto de muitas canções que passaram pelos festivais, mas é algo que não estaria nas minhas prioridades e quando não está nas minhas prioridades é algo que foge ao alcance dos meus sonhos.

O press release deste concerto prometia surpresas. Podes adiantar algumas?
Vou convidar muitos amigos para assistir ao concerto e gosto muito daquela interação de mandar bocas do palco, sem querer hostilizar e ostracizar o resto do público, mas pode ser que haja alguns apelos de última hora para as pessoas subirem ao palco sem poderem dizer que não, porque quando estou no palco tenho esse poder. Isso pode acontecer.

Já há data para um sucessor de Carga de Ombro?
O meu plano é mais cronológico. Este álbum saiu há mais ou menos um ano, por isso começa a chegar a altura em que não me sinto confortável por não estar a trabalhar em canções novas. Quando começo a trabalhar em canções novas é um período em que me isolo. Ainda não tive tempo este ano, felizmente tenho tido muito trabalho. Não estou a planear o álbum em si, mas sim essa altura em que me retiro um bocado e começo a juntar ideias ou a deixar que as ideias escapem de mim e a registá-las em canção.

És uma figura com um lugar muito próprio no panorama musical atual. Tens noção desse estatuto?
Houve uma altura em que eu estranhava muito a simpatia das pessoas. Quando era convidado de outros músicos e subia ao palco recebia uma calorosidade que achava muito estranha. Interrogava-me se as pessoas saberiam realmente quem eu era ou se estavam apenas a ser simpáticas. Entretanto deixei de ter o drama dessa incompreensão. Sinto-me demasiado afortunado por estar a fazer uma coisa de que gosto e ser reconhecido por isso, ao mesmo tempo que vejo outras pessoas lamentarem-se por não serem reconhecidas no que fazem. Fico com uma sensação de injustiça, de achar que há tanta gente com talento e que às vezes não têm a simpatia e o reconhecimento que eu tenho e são pessoas que ponho num pedestal, enquanto sou incapaz de me pôr num pedestal. Essa simpatia que recebia que me era tão estranha ou surpreendente e que me deixava a pensar se aquilo era verdadeiro ou não, eu já encaro com normalidade, porque há uma reciprocidade brutal. Quando chego a um palco e recebo a simpatia das pessoas, estou a tentar dar o máximo da minha simpatia. Começo a encarar com justiça a maneira como sou acarinhado pelo público. A minha vontade é acarinhar cada pessoa que consigo ver de cada vez que o holofote passa por uma cara sorridente. Apetece-me ir lá dar um passou-bem ou um abraço. Tento fazer isso com as canções e com a conversa que tenho com as pessoas, por isso se houver alguma justiça é a justiça da reciprocidade.

Um bom exemplo disso foi a forma como terminaste o concerto no São Luiz o ano passado, cantando o Carga de Ombro com o coro atrás, do palco até ao átrio…
Só tinha ensaiado com aquele coro no dia anterior e houve uma altura em que a banda teve de sair porque não cabíamos todos e correu tão bem que achei que tinha que fazer aquilo num concerto. Quando esse concerto acabou as pessoas ainda estavam em modo esponja e pensei que tinha que lhes dar esse brinde. Fiquei tão contente de ouvir aquela malta a cantar à capela comigo no dia anterior que foi um presente de última hora que me veio à cabeça.

[Por Filipa Santos | fotografias de Humberto Mouco-CML/ACL]

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