Entrevista a Gheorghe Fikl

Entrevista a Gheorghe Fikl

'Encenações Portuguesas' no Palácio da Ajuda

  • "Fotografo com olhos de pintor, e pinto com...
     "Fotografo com olhos de pintor, e pinto com...
  • ... os olhos de fotógrafo que também sou"
     ... os olhos de fotógrafo que também sou"

Nascido em 1969, Gheorghe Fikl é dos mais conceituados artistas romenos da atualidade. Até 31 de agosto, leva ao Palácio Nacional da Ajuda a exposição Encenações Portuguesas, onde apresenta 16 pinturas e cinco fotografias digitais de diversas coleções, obras expressivas das diferentes etapas e estilos de criação do artista. 

Porque é que escolheu a pintura e a arte digital como meio? De que forma acha que elas se complementam?
A combinação de meios nas minhas obras tem origem nos meus primeiros projetos artíticos. Desde que comecei a estudar Arte na Universidade de Belas-Artes de Timisoara, a minha cidade natal, que desenvolvi a tendência de usar vários meios. Incentivado por um dos meus antigos professores, Romul Nutiu, comecei a minha carreira a fazer experimentação e instalação. Por isso, uma vez que estou habituado a fazê-lo, para mim é completamente natural combinar diversos meios. Neste momento, foco-me na pintura e na arte digital. A sua compatibilidade recíproca surgiu da necessidade de documentar certos cenários com que me deparei nas minhas relações diárias. Por isso, a mistura dos dois deu-se mais por uma necessidade prática do que por uma escolha. Claro que, ao olhos da minha mente, eles se completam naturalmente. É esta a razão pela qual eu uso elementos e técnicas específicas da arte digital nas minhas pinturas e vice-versa.
  
Como é o seu processo criativo?
Ando constantemente à procura e a colecionar imagens que, no momento certo e quando me inspiram, transformo em obras de arte. Cada um dos meus trabalhos consiste na sobreposição de várias imagens que constroem a cenografia das minhas pinturas e que dão a impressão de uma colagem de elementos fotografados. Surpreendentemente, algumas imagens que era suposto servirem de inspiração para as minhas pinturas tornaram-se elas próprias em obras de arte. É por isto que, muitas vezes, tiro fotografias com os meus olhos de pintor, e pinto com os olhos de fotógrafo que também sou.
 
As suas pinturas associam, por norma, mundos diferentes. Existe, quase sempre, uma sobreposição do reino animal ou natural a cenários decadentes e objetos luxuosos. Qual pensa ser o elemento chave na criação de uma boa composição?
No que às minhas pinturas diz respeito, posso dizer que, depois de anos de experiência, criar uma boa composição é um gesto fluído que acontece num momento de inspiração. No fim de contas, uma pintura deve surgir de um impulso interior. Eu não começo a pintar pelo impacto visual puramente especulativo. As minhas pinturas são mensagens que quero passar. Claro que não consigo comunicar com êxito através das minhas pinturas a menos que tenha um bom entendimento da utilização das técnicas que fazem uma boa composição.
 

  • "Acredito que uma imagem visual
  • precisa de causar impacto nos
  • primeiros segundos em que
  • os olhos a veem."
  • Gheorghe Fikl

  
Os artistas usam, frequentemente, animais como sujeito na sua arte. Desde sempre que, na pintura, escultura ou fotografia, os animais são seres carregados de simbolismo. Que importância têm eles na sua obra?

No entendimento público, os animais já têm uma representação bem definida, por isso, gerar um impacto carregado do simbolismo desejado não é um desafio. Colocar um animal num ambiente ao qual não pretence pode tanto reforçar ou abalar esta representação pública, como pode dar-lhe um novo significado. Além disso, o animal também muda o cenário que o rodeia. Comecei por trazer o animal para o nosso mundo material, por isso coloquei o animal num espaço confinado. Nas minhas pinturas, tento criar este diálogo, esta troca entre os animais e as suas envolventes inadequadas. Neste cruzamento surgem dois mundos: o mundo físico - a dimensão carnal - e o mundo espiritual. Mas recentemente dei uma volta de 180 graus e levei as pessoas ao mundo natural, como numa pintura onde tirei o padre da igreja e o levei para a natureza, por exemplo. Aqui, a paisagem torna-se o altar. O mundo natural é um elemento recente nas minhas obras, uma vez que me tenho inspirado na envolvente do meu estúdio em Socolari, uma cidade situada no sudoeste da Roménia. Rodeada tanto por paisagens dramáticas como por paisagens tranquilas, a cidade serve de pano de fundo às minhas pinturas. Estas paisagens naturais podem ser vistas na minha série de pinturas mais recentes, The End of History, onde a natureza domina o mundo humano.
 
Os seus trabalhos têm sempre uma grande carga dramática. Porquê?
Acredito que uma imagem visual precisa de causar impacto nos primeiros segundos em que os olhos a veem. Neste aspeto, uma obra de arte difere de uma peça de música, por exemplo. Eu quero que as minhas pinturas façam as pessoas parar, que as façam questionar e desafiar o seu processo de pensamento, que faça com que o seu coração bata mais forte. Quero que as pessoas sejam atraídas pelas minhas obras e que interajam com elas. O que quero realmente é que as minhas pinturas não sejam esquecidas. Quero que os meus trabalhos se tornem numa marca mental, para que o espetador possa revisitá-los quando quiser.
  
Considera que as suas obras servem um propósito que vai para além do consumo visual?
Espero que sim. Apesar de o estar a fazer de uma forma dramática, o objetivo de qualquer pintura é comunicar algo, uma pequena parte da nossa realidade. A pintura é, por si, um instrumento, uma linguagem, um meio para transmitir ideias. A pintura deve revelar aspetos da nossa vida que muitas vezes passam despercebidos.
 
O que podemos esperar de Encenações Portuguesas?
No sumptuoso Palácio Nacional da Ajuda, as minhas obras vão ter a oportunidade de dialogar com o barroco contemporâneo. 

[Por Ana Rita Vaz]

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Fikl

Encenações Portuguesas

Artes › Exposições › Fotografia, Pintura
16 mai a 31 ago/17
Largo da Ajuda
1349-021 Lisboa

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